foto: Bruno Espadana

20 outubro 2009

#  Verdade e intenção

É uma falácia a acusação de que as declarações de Saramago são uma manobra publicitária. Não porque não seja verdade: é. Mas porque esse facto em nada nega a verdade das declarações dele. Ter interesses económicos e mediáticos no que se diz não impede que seja certeiro o que se diz. E Saramago é certeiro.

De igual forma, é uma falácia acusar certos políticos de tentarem tirar dividendos dos escândalos que envolvem os seus adversários, pretendendo com isso “provar” que os escândalos são infundados; uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se for verdade, ela permanece, mesmo que os movam interesses inconfessáveis ou até motivos sórdidos. A verdade dos nossos actos e palavras (bons ou maus) não se mede pela grandeza ou baixeza moral dos nossos adversários.

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29 março 2008

#  Eppur è tutto vero...

27 outubro 2007

#  Não me lembra nada nem ninguém (4)

Ilustração de Jason Holley
Ilustração de Jason Holley

  • inferior predictive structure (estrutura preditiva inferior)
  • frontal stupidity lobe (lobo frontal da estupidez)
  • CNBC gibberish cortex (córtex da léria da CNBC)
  • corpus credulum
  • neo-bovine herd-mentalitum (mentalitum da manada neo-bovina)
  • logic void (vazio lógico)
  • falsehood persistence node (nodo da persistência na falsidade)
  • arithmetical impossibility rationalization complex (complexo da racionalização das impossibilidades aritméticas)
  • price decline overreaction region (região da reacção exagerada à baixa de preços)
  • guru-bloviation acceptance ganglia (gânglios da aceitação do palavreado do guru)
  • beer (cerveja)
  • inappropriate enthusiasm nucleus (núcleo do entusiasmo inapropriado)
  • historical lesson rejection lobe (lobo da rejeição das lições da história)

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22 março 2007

#  Inaceitável

Ouço no telejornal da RTP que uma juíza indeferiu um pedido de divórcio por maus-tratos apresentada por uma muçulmana, exactamente por a queixosa ser muçulmana e os maus-tratos (por parte do marido) serem aceites pela lei islâmica.

ISTO É INACEITÁVEL!

Não preciso de ouvir o resto da notícia, não preciso de saber os pormenores, as «circunstâncias» para afirmar:

ISTO É INACEITÁVEL!

Qual caruncho, o «relativismo cultural» anda a roer as bases dos valores humanistas europeus. Urge combater essa praga, urge reafirmar os nossos valores.
E não é por os valores da civilização Ocidental serem «universais», como tantas vezes se diz (pois é exactamente o contrário: se fossem universais não haveria necessidade de defendê-los).

Os nossos valores têm de ser defendidos porque são melhores.

(OK, está dito — porque não tenho dúvidas quanto a isso.)


Valha-nos ao menos saber que a decisão da juíza chocou muitos membros da comunidade islâmica alemã: pessoas que puderam verificar pessoalmente, nas suas vidas, a superioridade dos valores ocidentais.

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19 março 2007

#  Os livros, o Livro e as pedras

Através do blogue do Tiago Barbosa Ribeiro chego ao excerto de um interessante debate entre Wafa Sultan (psicóloga árabe-americana) e o clérigo muçulmano Ibrahim Al-Khouly, ocorrido na televisão Al-Jazira há pouco mais de um ano:


O vídeo está legendado em inglês, mas destaco estas duas breves passagens:

Wafa Sultan na Al-Jazira
Quem lhe disse que eles são [parte do] «Povo do Livro»? Eles não são um Povo do Livro, eles são um povo de muitos livros. Todos os livros científicos úteis que temos actualmente são deles, fruto do seu pensamento livre e criativo.


Wafa Sultan na Al-Jazira
Eu não sou cristã, nem muçulmana, nem judia. Sou um ser humano laico. Não acredito no sobrenatural, mas respeito o direito de os outros acreditarem nisso. [...] Irmão, pode acreditar em pedras, desde que não mas atire.

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25 janeiro 2007

#  Bin Laden agradece

Leio no site do movimento “Vida, Sempre!” o seguinte argumento de «gente de peso»:
«Um país que aceita o aborto não está a ensinar os seus cidadãos a amar, mas a usar a violência para obterem o que querem. É por isso que o maior destruidor do amor e da paz é o aborto
(Teresa de Calcutá)

Quanto à primeira parte (que não destaquei), digo apenas que não me parece que entre as “obrigações” de um «país» esteja a de «ensinar os seus cidadãos a amar»... mas adiante.
Quanto à parte destacada: tais extremos retóricos («o maior destruidor»!) trazem-me à lembrança declarações mais recentes:
O Papa Bento XVI comparou hoje [01/01/2007] o aborto e as pesquisas em embriões ao terrorismo. Na homilia do Dia Mundial da Paz, o líder da Igreja Católica considerou que estas práticas constituem “um atentado contra a paz”.

Bin Laden y sus muchachos agradecem — raramente pessoas de tanto «peso» caucionaram (por banalizarem) a este ponto as suas acções criminosas.

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24 setembro 2006

#  Li e concordei (2)

De Miguel Sousa Tavares, no Expresso de ontem:
Inadvertidamente ou não, o Papa não disse nada sobre o Islão que nenhum ocidental não pense. Quando citou o Imperador bizantino Manuel II, dizendo “mostra-me aquilo que Maomé trouxe de novo e encontrarás só coisas mas e desumanas”, como “o direito de difundir a fé pela espada”, o Papa disse exactamente aquilo que todos nós pensamos hoje sobre o que significa fundamentalmente a corrente dominante no Islão: o direito a mandar, a aterrorizar e a matar em nome de Deus. [...]
[...]
Mas o que o Papa disse sobre o Islão, fingindo que não queria dizer, é exactamente o mesmo que se poderia dizer sobre qualquer outra religião, incluindo a católica. [...] E não foi a Igreja que mudou, mas a Revolução Francesa que ensinou os homens a mudar, contra a Igreja. Se olharmos para os dois mil anos de história depois do Novo Testamento [...], encontraremos as mesmas “coisas más e desumanas”, a mesma apologia de divulgar a fé através da espada. [...]

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21 setembro 2006

#  Nota à margem

Samir Kassir foi historiador e jornalista, professor no Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Saint-Joseph. Era reputado pelos seus editoriais publicados no grande jornal diário de Beirute, An-Nahar. A sua Histoire de Beyrouth (2003) foi saudada como uma obra de referência. Foi assassinado em 2 de Junho de 2005, em Beirute. Tinha então 45 anos.

Capa de 'Considerações sobre a desgraça árabe'Transcrevo este parágrafo da primeira página de Considerações sobre a desgraça árabe (Actes Sud, 2004; Cotovia, 2005), um opúsculo em cujo preâmbulo Samir Kassir se autodefine da seguinte forma:
O autor destas considerações é um árabe do Machereque, laico, como depressa se verá, aculturado e mesmo ocidentalizado — se assim não fosse, porque escreveria em francês? —, mas que não se considera alienado a uma cultura estrangeira, e, em todo o caso, pouco desejoso de erradicar aqueles que não pensam como ele. [...]

Na margem do texto anoto: «Não era recíproco...»

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07 agosto 2006

#  A nódoa

Ayman al-ZawahiriUm tema habitual entre os jihadistas e quejandos é a reconquista de todas as terras que já foram islâmicas, nomeadamente a Crimeia, os Balcãs e a Península Ibérica (que, no imaginário muçulmano, configura uma espécie de Éden da Idade de Ouro do Islão). Ainda recentemente o n.º 2 da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, afirmava num vídeo que a sua organização «libertará todos os lugares que foram terra do Islão, do Al-Andalus ao Iraque».

Não entendo esta fixação, este tabu sobre a presença de outras religiões e culturas em terras onde o Islão já pôs um dia o pé. Apesar de tudo, o Islão não é como o cavalo de Atila, de que se dizia que onde pisava nada mais crescia. Apesar de tudo, a conversão de uma terra (?) ao Islão é menos nociva do que o teste nuclear no Atol de Bikini ou o desastre de Chernobyl, que incompatibilizaram estes territórios com a vida. Apesar de tudo, o Islão não é uma nódoa no mapa civilizacional.

Ou será? Al-Zawahiri lá o saberá.

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12 julho 2006

#  Outros números para pensar

O mesmo Arab Human Development Report (p. 92) apresenta mais alguns números vergonhosamente surpreendentes (Timothy Garton Ash refere-os em Free World).

Sobre a produção literária no Mundo Árabe pode ler-se:
[...] There are no reliable figures on the production of books, but many indicators suggest a severe shortage of writing; a large share of the market consists of religious books and educational publications that are limited in their creative content.

Até aqui, nada de surpreendente. Mas logo a seguir, sobre o mercado da tradução, custa a acreditar:
The figures for translated books are also discouraging. The Arab world translates about 330 books annually, one fifth of the number that Greece translates. The cumulative total of translated books since the Caliph Maa’moun’s time (the ninth century) is about 100,000, almost the average that Spain translates in one year (Galal, S., 1999). [...]

Ou seja, o marcado da tradução livreira de um pequeno país, cuja língua só é falada por 12 milhões de pessoas (11 milhões de gregos, os restantes cipriotas) vale cinco vezes mais do que um mercado de 22 países e 280 milhões de habitantes!
E um país como a Espanha (admitamos: quase certamente o maior tradutor mundial) precisa de apenas um ano para traduzir a quantidade de livros que levou mais de 1100 anos (isso mesmo: onze séculos!) a traduzir nos países árabes.

Sem dúvida, são números para pensar — assim que recuperemos do choque.

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#  Um número para pensar

É uma realidade surpreendente com que contactei ao ler Free World, mas tenho agora acesso aos números em concreto:

Segundo o Arab Human Development Report de 2002 (versão integral, versão resumida), em 1999 o PIB combinado de todos os países árabes (531,2 mil milhões de dólares) foi menor do que o PIB da Espanha (595,5 mil milhões de dólares), um país europeu de tamanho médio.

Isto, apesar da riqueza que muitos (mas não todos) esses países têm no petróleo. Riqueza que está a acabar. Depois, como será?

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09 julho 2006

#  A liberdade no mundo (2.3)

Esta análise está dividida em partes: [1] [2.1] [2.2] [2.3] [3] [4]


Liberdade e geografia (conclusões)

  • Podemos assim dizer que a região com mais países livres é a Europa, seguida da América. (Obviamente, só três ou quatro países americanos — EUA, Brasil, México e Canadá — valem em termos populacionais quase tanto como toda a Europa, e muitíssimo mais em termos de superfície.)

  • Na região da Ásia e do Pacífico as coisas encontram-se mais ou menos equilibradas (em número de países) entre as três categorias, ainda que isto seja enganador: se entre os livres se contam países como a Índia, o Japão e a Indonésia, a maioria são minúsculas nações insulares — enquanto no lado oposto do espectro se encontra a gigantesca China (que, por si só, contribui com mais de metade dos habitantes de países não livres).

  • Na rota descendente da liberdade, segue-se a África Subsariana (onde predominam os regimes parcialmente livres) e os países da ex-União Soviética (predominantemente não livres).

  • Sobre os países ex-soviéticos, tenha-se em conta que 6 deles foram considerados também na região da Europa. Eliminar estas sobreposições tornará pior o cenário na restante ex-URSS (9 países: 0% livres, 33% parcialmente livres e 67% não livres) ou melhor no resto da Europa (36 países: 89%, 11% e 0%, respectivamente).

  • No fundo do ranking está a região do Médio Oriente e do Norte de África, esmagadoramente não livre (o que está estreitamente ligado com a terceira parte desta análise, sobre a relação entre Liberdade e Islão).


  • Liberdade por regiões
  • Uma última ressalva: viver num país considerado “livre” não é garantia de que todos os indivíduos sejam politicamente livres, ou sequer que grupos específicos (p. ex., minorias) gozem igualmente da liberdade geral.

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08 julho 2006

#  A liberdade no mundo (3)

Esta análise está dividida em partes: [1] [2.1] [2.2] [2.3] [3] [4]


Liberdade e Islão

O relatório da Freedom House contabiliza 46 países independentes (a magenta no mapa) cuja população é maioritariamente muçulmana. O Sahara Ocidental (6.5), indicado a roxo, é também esmagadoramente muçulmano, mas, não sendo um país independente (foi ocupado por Marrocos em 1976), não entra nas contas que se seguem. Da mesma forma, não são considerados outros territórios de maioria muçulmana, formalmente integrados em países não muçulmanos, mas cujo estatuto se encontra sob disputa: Norte do Chipre (2.0), Caxemira indiana (5.0), territórios palestinianos administrados pela Autoridade Nacional Palestiniana (5.0) ou ocupados por Israel (5.5), Kosovo (5.5) e Chechénia (7.0).

Adicionalmente, também foi descartada uma mão-cheia de países (indicados a amarelo) cuja população muçulmana, sendo a comunidade religiosa mais importante, não chega a 50% do total.

Países islâmicos
Analisando os dados do relatório de 2006, chegamos à conclusão de que apenas 3 países de maioria muçulmana são considerados livres — Mali (2.0), Indonésia e Senegal (ambos com 2.5) —, enquanto exactamente metade do total (23) foram classificados como não livres. Entrando no detalhe dos escalões entre 1.0 e 7.0, verifica-se que a média simples dos 46 países se situa em 5.0, isto é, no limite superior (pior) da classificação como parcialmente livre.

Número de países de maioria islâmica por escalão de liberdade
Apesar do cenário pouco abonatório, a verdade é que a situação tem vindo a melhorar. Há uma década (1995/96), com os mesmos 46 países, 70% (32) eram não livres e apenas um (o Mali) era considerado livre. E ainda em 2005 os países livres eram apenas dois, pois no relatório desse ano a Indonésia obteve um 3.5.

Liberdade nos países islâmicos (1995/96) Liberdade nos países islâmicos (2006)

Países Árabes

Se é verdade que nem todos os árabes são muçulmanos, e se também é verdade que a maioria dos muçulmanos não é de origem árabe, o facto é que todos os países árabes são maioritariamente (para não dizer esmagadoramente) muçulmanos. Por isso talvez não seja deslocado analisar a situação da liberdade nos países árabes.

O problema começa logo pela definição de “país árabe”. Optei por considerar como tal os que assim se declaram: ou seja, os 22 membros da Liga Árabe. Duas ressalvas se impõem: a primeira é que a Liga Árabe considera a Palestina (que efectivamente não é um país independente) como um membro de pleno direito; a segunda é que a mesma Liga reconhece formalmente o Sahara Ocidental como parte de Marrocos. Na análise aqui apresentada optei por considerar os dados relativos aos territórios sob administração da Autoridade Palestiniana (mas não os sob ocupação israelita). Por outro lado, optei por ignorar os dados relativos ao Sahara Ocidental.

Países da Liga Árabe
Assim sendo, o mapa considerado tem grandes semelhanças com o do Médio Oriente e Norte de África. As diferenças são a inclusão de 5 países (Mauritânia, Sudão, Djibuti, Somália e Comoros) e a exclusão de outros dois (Israel e Irão). E se naquela região o cenário da liberdade já era negro, nesta é ainda pior: 59% dos países (13) são não livres e não há um único país livre. E mesmo entre os países parcialmente livres a situação não é famosa: o menos mau (as minúsculas ilhas Comoros) obteve a classificação de 4.0. A média situa-se nos 5.5 (não livre).

Número de países da Liga Árabe por escalão de liberdade
Se se considerar o Sahara Ocidental (6.5), a percentagem de países não livres sobe para 61%. Alternativamente, poderemos decidir-nos pela inclusão deste país em Marrocos (4.5), mas nessa situação será difícil prever qual a classificação alcançada pelo “Grande Marrocos” nos seu todo (5.0 ou 5.5?).

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07 julho 2006

#  A liberdade no mundo (4)

Esta análise está dividida em partes: [1] [2.1] [2.2] [2.3] [3] [4]


Liberdade e desenvolvimento — e as excepções

Termino com duas citações (algo longas) de Free World, o livro de Timothy Garton Ash que me levou a este percurso pela liberdade no mundo. Diz ele na p. 186:
[...] O economista Amartya Sen argumenta convincentemente que a liberdade e o desenvolvimento são indissociáveis. Somente a partir de um certo nível de desenvolvimento podemos falar seriamente de liberdade das pessoas, mas um certo nível de liberdade política, a boa governação e o Estado de Direito são igualmente indispensáveis para o desenvolvimento. É preciso ser-se livre para se desenvolver e desenvolver-se para se ser livre. Outros autores explicitam a conexão entre democracia e desenvolvimento. É claramente errado sustentar que nenhum país pobre pode ser uma democracia [...]. E é errado sugerir que as pessoas nos países pobres, quer sejam islâmicas, confucionistas, ou africanas, não desejam a liberdade, nem a democracia: os inquéritos de opinião mostram consistentemente que essas pessoas querem a liberdade e a democracia. [Voltarei a isto brevemente.] Mas parece ser empírica e historicamente verdade que, quanto mais elevado for o PIB per capita de um país, maior é a probabilidade de se tornar numa democracia e assim se manter. Acima dos 6500 dólares por habitante, é raro que um país não seja uma democracia — embora haja, como sempre, excepções, nomeadamente os Estados árabes ricos em petróleo. Abaixo dos 2000 dólares por pessoa, é raro que um país permaneça uma democracia por muito tempo. [Ash não apresenta algumas notáveis excepções: p. ex., o Mali, pobre (240 dólares de PIB per capita), islâmico e consistentemente livre desde 1992.] As tarefas da liberdade e do desenvolvimento são, portanto, inseparáveis.

(Sobre isto, falta-me — imperdoavelmente — ler A Riqueza e a Pobreza das Nações, de David S. Landes.)

Mas continua Timothy Garton Ash, mais à frente (pp. 191–192):
Duas interpretações contrastantes tiveram grande aceitação desde os ataques de 11 de Setembro. Uma delas, favorecida por europeus laicos, assim como por huntingtonianos [referência a Samuel Huntington, autor de O Choque das Civilizações (1997)], vê o núcleo do problema na própria religião muçulmana. O Islão, diz-se, precisa da sua própria «Reforma», embora para os europeus laicos o verdadeiro sentido da «Reforma» consista, na realidade, no Iluminismo — e preferivelmente na sua versão europeia secularista. A outra interpretação é a de que estes ataques são o resultado de uma história específica de pessoas particulares, muitas das quais foram radicalizadas e enrijecidas pela luta durante o combate contra os russos no Afeganistão, com apoio americano. Os homens santos do Islão têm tanta responsabilidade pelo facto de Osama bin Laden ter atacado as torres gémeas em nome de Alá como o Papa ou o Arcebispo da Cantuária devem ser censurados se um louco assassinar em nome de Cristo.
Por razões óbvias, líderes ocidentais como Tony Blair e, após a infeliz utilização inicial da palavra «cruzada», George W. Bush deram publicamente ao Islão o benefício da dúvida. [...]

Nos países com uma maioria muçulmana, o registo da democracia é mais precário. [...] De qualquer modo, será talvez possível dizer que os países de maioria muçulmana têm um registo mais precário de democracia porque são pobres e não por serem muçulmanos? Dois estudiosos mostraram que, na sustentação de democracias eleitorais, os Estados não-árabes com uma maioria muçulmana tiveram desempenhos tão bons (se não melhores) quanto os de países de pobreza comparável.
Por isso, talvez o problema real não seja o «Islão», mas a história particular dos árabes? Aqui o registo é muito deprimente. Dos vinte e dois membros da Liga Árabe [...], nenhum é democrático, a menos que se esteja preparado para contar o Iraque entre o seu número. O trabalho de referência Arab Human Development Report*, de 2002, compilado por estudiosos árabes, insiste longamente no «défice democrático» da região. [...] os países árabes aparecem, a grande distância, como os piores do mundo, atingindo níveis de pontuação inferiores a metade da segunda pior região — a África Subsariana.
Depois de avançarem esta dura autocrítica, os autores argumentaram, no entanto, que o problema de Israel e da Palestina — o que eles chamam «a ocupação ilegal israelita das terras árabes» — constituía um dos maiores obstáculos ao progresso em todo o mundo árabe. A questão palestiniana, diziam eles, era usada pelos governantes árabes como um «pretexto» para «retardar o desenvolvimento político».

* Arab Human Development Report (United Nations Development Programme, Regional Bureau for Arab States, 2002): [versão integral, PDF] [resumo para a Imprensa]

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#  The enemy within

Foi há um ano que quatro bombistas suicidas se fizeram explodir nos transportes públicos de Londres. Ao contrário dos ataques de 11 de Setembro de 2001 e de 11 de Março de 2004, estes foram levados a cabo por cidadãos nacionais do país atacado.

Nem de propósito, prevejo terminar a minha análise «A liberdade no mundo» com uma parte precisamente intitulada «Liberdade e Islão», a que se seguirão, nos próximos dias, mais alguns posts sobre o mesmo tema, mas baseando-me em fontes diferentes.

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08 junho 2006

#  Semântica

Abu Mussab al-ZarqawiO Público online noticia a morte de Abu Mussab al-Zarqawi, líder da facção iraquiana da Al-Qaeda.

Enquanto leio o desenvolvimento mais recente («Blair diz que morte de al-Zarqawi é “boa notícia”», 10h42), reparo nos títulos dos textos anteriores: «Primeiro-ministro do Iraque confirma morte de al-Zarqawi» (09h18) e «Líder da Al-Qaeda no Iraque foi assassinado» (08h54).

Clico na notícia das 09h18. Quando, poucos minutos depois, volto atrás, a notícia das 08h54 passou a chamar-se «Líder da Al-Qaeda no Iraque foi morto em combate».

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17 maio 2006

#  O problema (deles) é mesmo esse!

Leio n’umblogsobrekleist:
Acho graça àqueles que nos massacram os tímpanos com alusões alvoroçadas à jihad e ao califado, sem serem capazes de indicar um único exemplo de acção militar expansionista de um país muçulmano contra um país dito “ocidental” nas últimas décadas.

Alexandre Andrade tem razão no que diz — e não tem razão no que deixa implícito.

Eu também não consigo «indicar um único exemplo de acção militar expansionista de um país muçulmano contra um país dito “ocidental” nas últimas décadas» (ou, de facto, nos últimos séculos). Mas isso não se deve à ausência de apelos à jihad, à inexistência de uma aspiração ao califado universal, sequer à benignidade ou não-beligerância dos conceitos de “jihad” e “califado”. Deve-se, isso sim, à incapacidade dos países islâmicos de efectivarem militarmente os desígnios expansionistas do Islão*. E essa incapacidade — essa “castração” — explica muita da sanha do mundo muçulmano em relação ao Ocidente (v. O Médio Oriente e o Ocidente: O Que Correu Mal?, de Bernard Lewis).

* Note-se que, se não há expansão dos países muçulmanos, o mesmo não se pode dizer do Islão em sentido lato, que não só cresce demograficamente nos países de maioria muçulmana, como alarga a sua área de influência (por penetração e conversão) aos países exteriores ao “mundo muçulmano”.

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12 maio 2006

#  Tudo (erradamente) no mesmo saco

As palavras de Monsenhor Angelo Amato, que citei anteontem («[If] such lies and errors had been directed at the Koran or the Holocaust, they would have justly provoked a world uprising») suscitam-me alguns comentários adicionais.

O primeiro é que o porta-voz do Vaticano mete no mesmo saco coisas que são bem diferentes. Pôr a negação do Holocausto nazi no mesmo plano da negação («mentiras e erros», nas palavras do prelado) dos relatos bíblicos ou corânicos é uma equiparação falaciosa.
O Holocausto nazi é um facto histórico; o acontecimento em si, as suas motivações e mesmo os números envolvidos não andarão muito longe da verdade. A História baseia-se na observação dos acontecimentos, na consulta de fontes fidedignas e na procura/proposta de conclusões. No caso do Holocausto, eventuais imprecisões (inevitáveis em História — e, de modo geral, em todas as Ciências, mesmo as “exactas”) não alteram fundamentalmente o cerne da questão.
Já a Bíblia (nas suas versões judaica e cristã) ou o Corão não tratam de factos históricos. Quanto muito, reportam-se a factos religiosos — o que é uma maneira arrevesada de dizer “não-factos”. As suas conclusões (permitam-me abusar da palavra) baseiam-se na premissa de que o Livro Sagrado em causa resulta de inspiração divina, no caso do Judaísmo e do Cristianismo, ou tem uma natureza para-divina (é coexistente a Deus), no caso do Islão.

Segundo comentário: nos dois casos apresentados por Angelo Amato — a negação do Holocausto e os insultos ao Islão —, a forma de manifestação do «world uprising» é bem diferente em termos de civilidade, pelo que também não é cordato equipará-las. No caso dos “desentendimentos” com o Islão, a resposta dos seguidores deste é a sabida: ameaças de morte, assassinatos, tumultos, atentados; em contraste, a resposta à negação do Holocausto passa geralmente pelos tribunais. Pergunto-me que tipo de «world uprising» preconiza Monsenhor Angelo Amato como resposta a O Código Da Vinci e outras dissidências face à ortodoxia católica...

Finalmente, e em relação ao comentário anterior, falta dizer que, apesar de eu não ter dúvidas quanto à veracidade do Holocausto nazi, sou totalmente contra a criminalização da sua negação — como, de resto, contra todo o tipo de instituição de “delitos de opinião”. (Note-se que é uma coisa diferente basear na negação do Holocausto a conclusão de que Israel não tem direito a existir e deveria ser «riscado do mapa».)
Se afirmar coisas mais facilmente refutáveis — digamos, «a Terra é plana e o Sol orbita à sua volta» — não dá direito a processo judicial, tão-só (?) ao ridículo e ao descrédito generalizado, por que razão há-de a afirmação de que o Holocausto não aconteceu merecer tratamento diferente? No caso da Alemanha, sabemos qual é a resposta: a criminalização é a forma encontrada pelo Estado alemão democrático para dissipar qualquer dúvida de que abjura as práticas do Estado nazi que o precedeu. Mas o efeito catárctico de um acto de contrição não deve obscurecer a verdade: que criminalizar a simples expressão de opiniões, mesmo que “inegavelmente erradas”, é fundamentalmente antidemocrático.

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29 abril 2006

#  Coexistência de espectro limitado

Tenho, ao longo dos anos, deparado com diversos sites (por exemplo, a Rua da Judiaria e A Origem das Espécies) que ostentam o seguinte logotipo:

Coexist
A ideia é simpática, ecuménia e tal — mas não consigo deixar de me perguntar: então e os budistas, os hindus, os xamanistas, os ateus...?

Depois penso: quanto aos budistas, aos hindus, aos xamanistas... não sei — mas nós, ateus, estamos representados no vazio entre as letras.

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#  Sensibilidade ateia

O post acima trouxe-me à lembrança um cartoon de Vince O’Farrell, publicado na sequência da polémica dos cartoons de Maomé:

(c) Vince O'Farrell
«Notícia de última hora: 15.000 ateus revoltosos invadiram a redacção de um jornal depois de 12 folhas em branco terem sido encontradas na secretária de um cartoonista...»

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