foto: Bruno Espadana

29 março 2008

#  Eppur è tutto vero...

23 janeiro 2007

#  As falácias do “Teste de gravidez”

(Agora que o debate sobre o Referendo à Interrupção Voluntária da Gravidez/Aborto realmente começou, recupero aqui um post de Dezembro.)


Sendo a Internet um veículo privilegiado para a transmissão de inanidades («reenvia a quem conheceres»...), chegou até mim um e-mail de assunto «TESTE DE GRAVIDEZ», o qual constava, para além da recomendação «Vale a pena pensar nisto», de uma apresentação em Powerpoint:






A dita mensagem vinha assinada por alguém cujo endereço de e-mail indicava estar ligada a uma universidade portuguesa: uma breve pesquisa e pude constatar estar perante uma Professora Catedrática na área de Educação e Psicologia.

Este último facto é grave, pois embora a autoria do Powerpoint não fosse da tal Professora (pelo menos um dos slides denunciava a sua origem ou tradução brasileira), a “académica” em causa contribuiu para a sua divulgação, donde se depreende que subscreve o seu conteúdo. Ora, sendo a dita apresentação Powerpoint uma sucessão de falácias (condimentadas aqui e ali com uma pitada de ignorância), a sua subscrição por parte de uma Prof.ª Catedrática é triste, grave — e sintomática. No alto da cátedra onde se encontra, a Sr.ª Prof.ª não deveria contribuir para a propagação da falácia e da ignorância; esperemos que tal efeito daninho se limite às áreas que não da sua especialidade... esperemos que seja apenas (?) reflexo da suspensão do espírito crítico que tão frequentemente vem associado a temas “fracturantes”, como é o do aborto.

Logo no segundo slide pergunta-se «O que recomendarias ou pensas que se deve fazer perante os seguintes casos de gravidez?» Ora, a questão é precisamente essa, ou melhor, o contrário dessa: Não recomendaria nada. A decisão de abortar ou não é de cada grávida, que não só é quem melhor pode ajuizar da sua situação, como — e isto é o mais importante — é só a ela que a decisão diz respeito. Quanto ao «que se deve fazer», cada caso é um caso: não existe resposta enlatada, não existe solução chave-na-mão (hélas!) — o «que se deve fazer» depende, antes de mais, e acima de tudo, do que a grávida quer fazer, dos seus valores, da sua consciência, da avaliação que ela faz quanto às alternativas e suas consequências.

Quanto aos cinco casos apresentados, as falácias são evidentes. Mas antes de lá irmos, uma palavrinha relativamente às escolhas: dos cinco, dois ou três são más escolhas no que toca ao poder de convencimento, pois é muito questionável se a sua existência foi benéfica para a Humanidade... Mas adiante — vamos às falácias.

Em primeiro lugar, existe a falácia da amostra: apresentam-se “exemplos” que corroboram a “tese”, enquanto se omitem todos os que possam refutá-la. (Recordando que a “mensageira” é Catedrática, esperemos não ter sido esta a técnica usada na sua Tese de Doutoramento...) É que o pseudo-silogismo da apresentação Powerpoint tem tanta validade como estoutro:
  • A mãe de Hitler não o abortou;
  • A mãe de Estaline não o abortou;
  • A mãe de Mao Tse Tung não o abortou;
  • A mãe de Pol Pot não o abortou;
  • Estes homens foram responsáveis por guerras sangrentas, deportações e execuções sumárias, genocídio e massacres, de onde resultaram várias dezenas de milhões de inocentes mortos;
  • Conclusão: Salve milhões de vidas: Aborte ou ajude alguém a abortar! Livre-nos dos monstros que ainda não nasceram! Está na sua mão fazer deste um Mundo melhor! Muitos inocentes dependem de nós...
Ridículo, não? Abusivo, diria eu. Uma falácia grosseira. Mas é o mesmo tipo de raciocínio da apresentação Powerpoint: uma avaliação a posteriori da bondade ou não de um acontecimento particular (no caso, o nascimento de alguém em concreto), de onde se parte para uma suposta conclusão a priori relativamente a um acontecimento geral (todo e qualquer nascimento ou aborto).

Temos depois a falácia da generalização abusiva. O mundo teria sido um paraíso sinfónico se nascesse alguém da craveira de um Ludwig van Beethoven sempre que uma mulher tuberculosa com quatro filhos (o primeiro cego, o segundo surdo, o terceiro já morto e o quarto com tuberculose) ficasse grávida pela quinta vez de um homem asmático. Ou se toda a violação de menores (ou, vá lá, apenas as enquadráveis no subconjunto constituído por violador branco e violada negra de 13 anos) resultasse no nascimento de uma diva do jazz como Ethel Walters. Nesse cenário, a vacina BCG e o artigo 164.º do Código Penal Português seriam os maiores inimigos dos melómanos nacionais.
Compreenda-se: Ludwig van Beethoven e Ethel Walters são recordados e celebrados precisamente porque o surgimento de alguém com o seu talento é raro. Torná-los coroa de uma vulgaríssima moeda em cuja cara constam aspectos biográficos circunstanciais (e irrelevantes) é uma falta de respeito aos génios únicos que eles foram e, uma vez mais, é prova de ignorância e de ausência de sentido crítico. Ou de má-fé.

Já agora, não pude verificar a veracidade de todos os dados biográficos apresentados no Powerpoint em causa. Não que tal veracidade altere muito as coisas: o argumento é falacioso, mesmo se se basear em informação 100% correcta.
O que até não é o caso: pelo menos no que toca a John Wesley há inverdades — voluntárias (manipulações, mentiras) ou involuntárias (ignorância). Em primeiro lugar, dificilmente John Wesley poderá ser classificado como «um dos maiores pregadores do século XIX» — pois morreu em 1791 (séc. XVIII, portanto). Quanto à «extrema indigência» dos seus pais, «um pastor e a sua esposa [que] enfrentam problemas económicos muito fortes» («são realmente pobres»), convirá esclarecer que a sua mãe, Susanna Annesley, era filha de um médico e que Samuel Wesley (o pai) não era um «pobre pastor» de ovelhas (lá se vai o bucolismo beato e caritativo...), como se poderia ser levado a pensar, mas um Pastor da Igreja Anglicana, formado em Oxford, que em 1703 (aquando do nascimento do seu filho John) era reitor de Epworth. Para “indigente” não está mal...

Mas, como disse, estas incorrecções, mesmo se deliberadas, são coisas menores face à atitude de falácia generalizada que preside à famosa apresentação Powerpoint. Não é com os «propagandistas da morte» que as nobres almas que estão «a favor da vida» têm de se preocupar para evitar serem confundidas e enganadas — mas com os seus próprios “correligionários”, que com má-fé se aproveitam da sua ignorância e falta de espírito crítico.

Repito: sei que a apresentação Powerpoint não é da autoria da tal Professora Catedrática. Mas se um professor não deve ser um mero transmissor de conhecimentos, muito menos o deve ser de ignorâncias.

Dizia a Sr.ª Prof.ª no seu e-mail: «Vale a pena pensar nisto.»
Eu diria menos: «Vale a pena pensar (Ponto.)
Experimente, Sr.ª Prof.ª. Vai ver que não dói nada.

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12 maio 2006

#  Tudo (erradamente) no mesmo saco

As palavras de Monsenhor Angelo Amato, que citei anteontem («[If] such lies and errors had been directed at the Koran or the Holocaust, they would have justly provoked a world uprising») suscitam-me alguns comentários adicionais.

O primeiro é que o porta-voz do Vaticano mete no mesmo saco coisas que são bem diferentes. Pôr a negação do Holocausto nazi no mesmo plano da negação («mentiras e erros», nas palavras do prelado) dos relatos bíblicos ou corânicos é uma equiparação falaciosa.
O Holocausto nazi é um facto histórico; o acontecimento em si, as suas motivações e mesmo os números envolvidos não andarão muito longe da verdade. A História baseia-se na observação dos acontecimentos, na consulta de fontes fidedignas e na procura/proposta de conclusões. No caso do Holocausto, eventuais imprecisões (inevitáveis em História — e, de modo geral, em todas as Ciências, mesmo as “exactas”) não alteram fundamentalmente o cerne da questão.
Já a Bíblia (nas suas versões judaica e cristã) ou o Corão não tratam de factos históricos. Quanto muito, reportam-se a factos religiosos — o que é uma maneira arrevesada de dizer “não-factos”. As suas conclusões (permitam-me abusar da palavra) baseiam-se na premissa de que o Livro Sagrado em causa resulta de inspiração divina, no caso do Judaísmo e do Cristianismo, ou tem uma natureza para-divina (é coexistente a Deus), no caso do Islão.

Segundo comentário: nos dois casos apresentados por Angelo Amato — a negação do Holocausto e os insultos ao Islão —, a forma de manifestação do «world uprising» é bem diferente em termos de civilidade, pelo que também não é cordato equipará-las. No caso dos “desentendimentos” com o Islão, a resposta dos seguidores deste é a sabida: ameaças de morte, assassinatos, tumultos, atentados; em contraste, a resposta à negação do Holocausto passa geralmente pelos tribunais. Pergunto-me que tipo de «world uprising» preconiza Monsenhor Angelo Amato como resposta a O Código Da Vinci e outras dissidências face à ortodoxia católica...

Finalmente, e em relação ao comentário anterior, falta dizer que, apesar de eu não ter dúvidas quanto à veracidade do Holocausto nazi, sou totalmente contra a criminalização da sua negação — como, de resto, contra todo o tipo de instituição de “delitos de opinião”. (Note-se que é uma coisa diferente basear na negação do Holocausto a conclusão de que Israel não tem direito a existir e deveria ser «riscado do mapa».)
Se afirmar coisas mais facilmente refutáveis — digamos, «a Terra é plana e o Sol orbita à sua volta» — não dá direito a processo judicial, tão-só (?) ao ridículo e ao descrédito generalizado, por que razão há-de a afirmação de que o Holocausto não aconteceu merecer tratamento diferente? No caso da Alemanha, sabemos qual é a resposta: a criminalização é a forma encontrada pelo Estado alemão democrático para dissipar qualquer dúvida de que abjura as práticas do Estado nazi que o precedeu. Mas o efeito catárctico de um acto de contrição não deve obscurecer a verdade: que criminalizar a simples expressão de opiniões, mesmo que “inegavelmente erradas”, é fundamentalmente antidemocrático.

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