foto: Bruno Espadana

20 outubro 2009

#  Verdade e intenção

É uma falácia a acusação de que as declarações de Saramago são uma manobra publicitária. Não porque não seja verdade: é. Mas porque esse facto em nada nega a verdade das declarações dele. Ter interesses económicos e mediáticos no que se diz não impede que seja certeiro o que se diz. E Saramago é certeiro.

De igual forma, é uma falácia acusar certos políticos de tentarem tirar dividendos dos escândalos que envolvem os seus adversários, pretendendo com isso “provar” que os escândalos são infundados; uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se for verdade, ela permanece, mesmo que os movam interesses inconfessáveis ou até motivos sórdidos. A verdade dos nossos actos e palavras (bons ou maus) não se mede pela grandeza ou baixeza moral dos nossos adversários.

Etiquetas: , , , ,

27 outubro 2007

#  Não me lembra nada nem ninguém (4)

Ilustração de Jason Holley
Ilustração de Jason Holley

  • inferior predictive structure (estrutura preditiva inferior)
  • frontal stupidity lobe (lobo frontal da estupidez)
  • CNBC gibberish cortex (córtex da léria da CNBC)
  • corpus credulum
  • neo-bovine herd-mentalitum (mentalitum da manada neo-bovina)
  • logic void (vazio lógico)
  • falsehood persistence node (nodo da persistência na falsidade)
  • arithmetical impossibility rationalization complex (complexo da racionalização das impossibilidades aritméticas)
  • price decline overreaction region (região da reacção exagerada à baixa de preços)
  • guru-bloviation acceptance ganglia (gânglios da aceitação do palavreado do guru)
  • beer (cerveja)
  • inappropriate enthusiasm nucleus (núcleo do entusiasmo inapropriado)
  • historical lesson rejection lobe (lobo da rejeição das lições da história)

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , ,

23 março 2007

#  Just how funny is it, anyway?...

Eis um dos “links patrocinados” do Gmail, com o qual me acabo de deparar:

Livros Cristão Gratuitos: Divirta-se com livros Cristãos Gratuitos sobre o evangelho da salvação
Por incrível coincidência, numa outra janela do browser estava a ler um artigo na New Yorker, onde encontro este cartoon de Matthew Diffee:

(c) Matthew Diffee / The New Yorker
Não sei com qual me ria mais...

Etiquetas: ,

22 março 2007

#  Criacionismo vs. Evolucionismo

(c) Alex Gregory / The New Yorker
«Parece-me que é aqui que nos separamos.»

© Alex Gregory / The New Yorker (08/01/2007)




(Em todo o rigor, como é sabido, não é só o cristianismo evangélico que recusa a Teoria da Evolução...)

Etiquetas: , , , ,

#  Mente aberta

(c) Robert Mankoff / The New Yorker
Padre: «Desaparece!»

© Robert Mankoff / The New Yorker (17/10/2005)

Etiquetas: , , , ,

25 janeiro 2007

#  Deus e o aborto: desfazendo alguns mitos

Mas uma coisa é reconhecer à Igreja Católica o direito de, arbitrariamente, ditar as regras por que se rege o seu rebanho — outra bem diferente é fechar os olhos às incongruências que surgem quando fundamenta os seus ditames comportamentais (que quer impor mesmo àqueles que não se inscrevem entre os seus) em valores supostamente absolutos e claros. Um desses valores é a vida, em que a Igreja inclui a vida intra-uterina.
(Digo «a Igreja», porque a Lei portuguesa distingue as duas coisas: o Código Penal coloca em capítulos diferentes os «crimes contra a vida» e os «crimes contra a vida intra-uterina».)

Voltando à argumentação da Igreja Católica, a recusa do aborto fundamentar-se-ia, supostamente, na sacralidade absoluta da vida, expressa no interdito divino do Decálogo («Não matarás», Êxodo 20:13) e, antes disso, no significativo episódio de Caim, o fratricida a quem Deus apesar de tudo protege (Génesis 4:14–15), não deixando que o façam pagar pelo seu crime com a morte.
(Estas passagens servem também para argumentar contra a existência da pena de morte — pena a que eu me oponho a 100%, em todo e qualquer caso, mas que, estranhamente, é admitida em determinadas circunstâncias pela Igreja Católica.)

Mas convém desmontar tais interpretações, porque:
  1. nem para Deus (segundo a Bíblia) a vida é um valor absoluto;
  2. nem o feto é equiparado a um ser humano;
  3. nem, consequência do anterior, o aborto é equiparado ao homicídio.

Vejamos:

1. Para Deus (segundo a Bíblia) a vida não é um valor absoluto.
Vou passar este argumento sem mais delongas, pois é lateral à nossa questão. As provas desta minha afirmação encontram-se por toda a Bíblia (com muita morte caucionada por Deus), e de forma particularmente clara nos capítulos 21 e 22 do Êxodo.

2. Para Deus (segundo a Bíblia) o feto não é equiparável a um ser humano.
3. Para Deus (segundo a Bíblia) o aborto não é equiparável ao homicídio.
A prova de prova de 2 obtém-se da prova de 3: ao não prescrever para o aborto a mesma pena que para o homicídio, conclui-se que Deus não equipara o feto a um ser humano, sendo muito menos grave abortar do que matar alguém. E é exactamente o que acontece em Êxodo 21:22:
«Se alguns homens brigarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, não resultando, porém, outro dano, este certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e pagará segundo o arbítrio dos juízes;»
Ou seja, enquanto o homicídio (Êxodo 21:12) e muitos outros crimes são punidos com a pena de morte, o aborto é um mero objecto de sanção pecuniária: quem provoca o aborto numa mulher (sem ser a pedido dela) deve indemnizar a família lesada. O aborto (uma vez mais, provocado por terceiros sem ser a pedido da grávida) só passa a ser crime se puser em perigo a vida da mulher, conforme se pode deduzir do versículo 23 do mesmo capítulo:
«mas se resultar dano, então darás vida por vida,»
Conclusão: o que é crime é o dano provocado à mulher, não ao feto.


E o que diz Deus quanto ao aborto feito a pedido da mulher? Nada, pelo menos a julgar pela Bíblia.
A palavra «aborto» (ou melhor, alguma forma do verbo «abortar» ou equivalente) só aparece na Bíblia por duas (ou talvez três) vezes: no versículo já citado; no livro de Oseias (9:14), em que o profeta pede a Deus que castigue o Povo Eleito (tornado iníquo) com «um útero que aborte e seios ressequidos»; e talvez no Salmo 29, versículo 9, em que a temerosa voz de Deus é apresentada como «fazendo as corças dar à luz» [subentende-se que antes do tempo, provocando-lhes o aborto].

Ou seja, para além de Deus apenas prescrever penas para o aborto provocado por terceiros contra a vontade da mulher (à semelhança do n.º 1 do Artigo 140.º do Código Penal português, mas sendo Deus mais brando), a Bíblia só volta a falar no assunto em sentido figurado (como sinal da ira ou do poder divino). E mais nada. Nenhuma criminalização da mulher que decide abortar.
Por isso, quem se opõe às alterações aos números 2 e 3 do Artigo 140.º do Código Penal (que tratam das penas de prisão para o aborto com consentimento da mulher) — e é disso que o Referendo trata — tem de procurar outro sítio para sustentar a sua posição. No registo da sua palavra que Deus nos deixou nada consta.

Etiquetas: , , , ,

02 janeiro 2007

#  Eu é que falo com Cristo!

No Diz Que É Uma Espécie de Magazine de ontem, Ricardo Araújo Pereira desancou exemplarmente aquele que foi um dos principais bombos da festa do tempo em que o Gato Fedorento era apenas um blogue: Alexandra Solnado e a sua série de livros mediúnicos Este Jesus Cristo Que Vos Fala (exemplos aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Agora espera-se a reacção de Alexandra Solnado. Ela, por sua vez, espera a reacção de Jesus Cristo.

Etiquetas: , , ,

19 maio 2006

#  Mitos

No editorial do Público de ontem («Mayflower, Anne Frank e Ayan Hirsi Ali»), escrevia José Manuel Fernandes (JMF):
Em 1620 um pequeno barco cruzou o Atlântico com um grupo de ingleses que fugiam das perseguições religiosas. Chamava-se Mayflower e a história dos que neles viajaram é um dos mitos fundadores do Novo Mundo — um Novo Mundo onde as convicções religiosas não fossem motivo de ostracismo, de perseguição ou de morte.
Curiosamente, uma parte dos que viajaram nesse navio tinha antes procurado refúgio na Holanda, primeiro em Amesterdão, depois em Leiden. [...]

Esta é a base para JMF estabelecer um paralelo com Anne Frank e Ayan Hirsi Ali, mas o que me interessa realçar é outra coisa: é opinião de muitos historiadores que a “fuga” dos puritanos do Mayflower não se deveu a perseguições religiosas de que fossem vítimas, mas à sua própria intolerância religiosa: não lhes agradava o laxismo da Igreja de Inglaterra, que tinha ficado a “meio caminho”, permitindo uma certa liberdade de culto (e obrigando-os, por isso, a conviver com outros, menos “puros”); não lhes agradou também a tolerância holandesa (que, por sua vez, via com maus olhos o rigorismo religioso dos recém-chegados). Haveria, sim, algum ostracismo (como há quase sempre num grupo mais liberal relativamente a alguém mais “beato” — e vice-versa) — mas não «perseguição ou morte».

(O “laxismo” da Igreja de Inglaterra e da Coroa foi, também, um dos factores que ditou a Guerra Civil Inglesa, liderada pelo “puritano” Oliver Cromwell, que decapitou o rei; este, casado com uma católica, era acusado de tolerar os “papistas”.)

O mito da “fuga libertadora” do Mayflower é, pois, isso mesmo: um mito. Em vez de liberdade, os “Peregrinos” procuravam, isso sim, um sítio onde pudessem livremente ser intolerantes e evitar o contacto com “O Outro, o impuro”.

Nota à margem: Da mesma forma, não é por qualquer forma de pacifismo que os judeus ultra-ortodoxos israelitas recusam o serviço militar, mas sim porque as Forças Armadas do seu país incorporam mulheres, esses seres “impuros” dotados de vagina, com quem seriam obrigados a partilhar as fileiras — e, está bom de ver, um tal convívio afastá-los-ia de Deus...

Seguem-se duas citações. A primeira é da Wikipédia. Para quem ponha (prudentemente) em causa a credibilidade de uma publicação em que qualquer um pode colaborar, segue-se um excerto da Columbia Encyclopedia, da responsabilidade de uma das universidades da Ivy League (crème de la crème das universidades americanas).

Wikipédia:
Although not actively persecuted, the group was subjected to ecclesiastical investigation and to the mockery, criticism, and disfavor of their neighbors (Columbia Encyclopaedia). They left, not for religious freedom, but because there was too much freedom of religion in England and they wanted it to be stricter. These separatist "Pilgrims" settled in Leiden for 12 years, but by 1617 a poor economy, and concern about the Dutch influence upon their community convinced many of them to move on, this time to the New World.
Concerned with the morals of the time in the Netherlands, and with their children being brought up in a Dutch environment, they decided to move to a place better-suited to them; and in 1620, they set sail on the ship Mayflower from Plymouth Harbor, bound for the Americas. These people became known as the Pilgrim Fathers.

The Columbia Encyclopedia, Sixth Edition. 2001-05:
Although not actively persecuted, the group was subjected to ecclesiastical investigation and to the mockery, criticism, and disfavor of their neighbors.
To avoid contamination of their strict beliefs and to escape the hated church from which they had separated, the sect decided to move to Holland, where other groups had found religious liberty [...].
Life in Holland was not easy, however, and the immigrants found the presence of radical religious groups there objectionable. Dutch influence also seemed to be altering their English ways, and the prospect of renewed war between the Netherlands and Spain threatened. For these reasons they considered moving to the New World.
[...]
The Leiden group constituted only 35 of the 102 passengers on the Mayflower; many of the English group gathered for the trip were not even separatists (they were thus called “Strangers”). Nonetheless, the Leiden group (the “Saints”) retained control and were the moving force behind the emigration. While most of the Leiden Pilgrims were English, modern scholars have found that several were French-speaking Walloons and one was a Pole.

Etiquetas: , , ,

18 maio 2006

#  Factos

Acho piada a quem acusa o livro de Dan Brown de «enganar os leitores» por começar com a afirmação:
Facto: [...] Todas as descrições de obras de arte, edifícios, documentos e rituais secretos que aparecem neste romance são exactas.

Serão essas pessoas uns leitores tão básicos, ao ponto de não perceberem que uma obra de ficção é-o do princípio ao fim, estando por isso “habilitada” a classificar como “factos” aquilo que bem lhe aprouver?

Veja-se o caso dos filmes de terror, em que a certa altura uma personagem poderá dizer: «Eu queria que isto fosse um pesadelo, mas afinal é real!» (É?)
Veja-se o caso de Saramago, que em epígrafe começou por citar autores reais e livros que existem (Estrabão, Fernão Lopes, Diderot, Evangelho de Lucas...), para a partir de certa altura passar a citar livros que só existem na sua biblioteca imaginária (Livro dos Conselhos, Livro das Evidências, Livro dos Contrários).

Obviamente, o leitor é livre (ou passível) de aceitar como factual algo que, em essência, é ficcional. Mas isso acontece desde sempre: veja-se o Bhagavad Ghita, veja-se o Livro de Mórmon, veja(m)-se a(s) Bíblia(s), veja-se o Corão... Em termos de credulidade — e citando um dos anteriores —, nihil nove sub sole.

Etiquetas: , ,

#  Revisionismo teológico (1)

O Evangelho de Judas:

(c) Jack Ziegler / The New Yorker
Happy hour” na Galileia com Jesus e Judas

Cartoon de Jack Ziegler / The New Yorker

Etiquetas: , , ,

#  Revisionismo teológico (2)

O feminismo primevo, segundo Dan Brown (et alli):

(c) zé d’almeida / Pitecos
Cartoon de zé d’almeida / Pitecos

Etiquetas: , ,

29 abril 2006

#  Coexistência de espectro limitado

Tenho, ao longo dos anos, deparado com diversos sites (por exemplo, a Rua da Judiaria e A Origem das Espécies) que ostentam o seguinte logotipo:

Coexist
A ideia é simpática, ecuménia e tal — mas não consigo deixar de me perguntar: então e os budistas, os hindus, os xamanistas, os ateus...?

Depois penso: quanto aos budistas, aos hindus, aos xamanistas... não sei — mas nós, ateus, estamos representados no vazio entre as letras.

Etiquetas: , , , ,

16 fevereiro 2006

#  Sentido de humor

Entre outras coisas, o que falta, manifestamente, ao mundo muçulmano é sentido de humor, em especial quando este é reflexivo, autocrítico. Mas isso, já sabemos, é só mais um sintoma do atraso cultural do Islão. Humor e autocrítica são sinais de sofisticação — algo incompatível com quem chama a tudo o que lhe seja anterior ou alheio «Tempo (e Terra) da Ignorância».

Pintura de Mark Ryden
The Angel of Meat

Pintura de Mark Ryden
Saint Barbie
(ou Barbie-Cova-da-Iria...)


Pintura de Mark Ryden
Dead Characters

Pintura de Mark Ryden

Pintura de Mark Ryden
The Birth of Venus

A quantos séculos de distância está o Islão de um humor como este de Mark Ryden? Pelo calendário deles, estamos em 1426 (Idade Média, portanto) — ainda teremos de esperar.

Etiquetas: , , ,