foto: Bruno Espadana

20 outubro 2009

#  Verdade e intenção

É uma falácia a acusação de que as declarações de Saramago são uma manobra publicitária. Não porque não seja verdade: é. Mas porque esse facto em nada nega a verdade das declarações dele. Ter interesses económicos e mediáticos no que se diz não impede que seja certeiro o que se diz. E Saramago é certeiro.

De igual forma, é uma falácia acusar certos políticos de tentarem tirar dividendos dos escândalos que envolvem os seus adversários, pretendendo com isso “provar” que os escândalos são infundados; uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se for verdade, ela permanece, mesmo que os movam interesses inconfessáveis ou até motivos sórdidos. A verdade dos nossos actos e palavras (bons ou maus) não se mede pela grandeza ou baixeza moral dos nossos adversários.

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29 junho 2009

#  A Origem do Universo — Agoramesmismo

O vídeo que prova que o Universo NÃO foi criado há 15 000 milhões de anos (como afirmam os cientistas), NEM há 6000 anos (como diz na Bíblia).
De facto, o Universo foi criado... agora mesmo!
Espalhem a Boa Nova!!!

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16 setembro 2008

#  Religião e Moral

No elevador, uma vizinha para a filha em idade escolar:
«... é porque tu tens Religião e Moral, e o Pedro não. Tem moral, mas não tem religião.»

Que a minha vizinha seja capaz de fazer a distinção, dá-me alento para pensar que nem tudo neste mundo está perdido.

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04 junho 2008

#  Não me lembra nada nem ninguém (9)

«Do ponto de vista demagógico, a melhor maneira de evitar a discussão é tornar o argumento impossível de verificação no presente e afirmar que o futuro lhe revelará os méritos
(adaptado de Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, p. 458)

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29 março 2008

#  Eppur è tutto vero...

14 janeiro 2008

#  Isso explica muita coisa...

Richard Land, da Convenção Baptista Sulista [cristã evangélica], citado pelo Público:
Não há dúvida de que esta é a Casa Branca mais receptiva às nossas preocupações [...]. Na Administração Reagan costumavam devolver os nossos telefonemas. Na de Bush [pai], muitas vezes devolviam os nossos telefonemas mas não tão rapidamente, e por vezes não de forma tão receptiva. Na Administração Clinton deixaram de responder aos nossos telefonemas ao fim de um certo tempo. Nesta Administração [de G. W. Bush] são eles que nos telefonam e perguntam «qual é a vossa opinião sobre isto?»

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27 outubro 2007

#  Não me lembra nada nem ninguém (4)

Ilustração de Jason Holley
Ilustração de Jason Holley

  • inferior predictive structure (estrutura preditiva inferior)
  • frontal stupidity lobe (lobo frontal da estupidez)
  • CNBC gibberish cortex (córtex da léria da CNBC)
  • corpus credulum
  • neo-bovine herd-mentalitum (mentalitum da manada neo-bovina)
  • logic void (vazio lógico)
  • falsehood persistence node (nodo da persistência na falsidade)
  • arithmetical impossibility rationalization complex (complexo da racionalização das impossibilidades aritméticas)
  • price decline overreaction region (região da reacção exagerada à baixa de preços)
  • guru-bloviation acceptance ganglia (gânglios da aceitação do palavreado do guru)
  • beer (cerveja)
  • inappropriate enthusiasm nucleus (núcleo do entusiasmo inapropriado)
  • historical lesson rejection lobe (lobo da rejeição das lições da história)

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07 setembro 2007

#  Deus, o Mal e o livre-arbítrio

No site da FNAC deparo-me com esta publicidade ao último livro de Luís Miguel Rocha, autor de O Último Papa:

«Nenhuma bala pode matar se essa não for a Sua vontade»: Irmã Lúcia numa carta a João Paulo II
A Igreja sempre meteu os pés pelas mãos quando chega a altura de lidar com a Inconciliabíssima Trindade.

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17 julho 2007

#  A ignorância que mais nos convém

pintura de Hieronymus Bosch (detalhe)Um post da semana passada publicado no De Rerum Natura fez-me desenterrar o livro Histórias da Luz e das Cores, de Luís Miguel Bernardo (Editora da Universidade do Porto, 2005), que há mais de ano e meio luta por atenção na base de uma pilha que entretanto se formou, qual sucessão de estratos geológicos. Ainda não é desta que lhe dedico a atenção merecida (o primeiro volume consta de 700 páginas, e as prioridades são outras), mas não resisti a dar uma vista de olhos mais profunda do que aquela que ditou a sua compra.

A certa altura, deparo-me com a história de um certo N. F. Villette, que nos sécs. XVII-XVIII foi construtor de «espelhos ardentes», com os quais concentrava os raios solares, incendiando madeira e abrindo buracos em chapas metálicas. Conta-nos o autor:
Este espelho esteve em risco de ser destruído e o seu construtor maltratado pelo povo de Liège, instigado pela superstição e ignorância.

Luís Miguel Bernardo transcreve então o relato que em 1837 Julia de Fontenelle fez dos acontecimentos:
Em 1713, em quanto o espelho de M. Villette estava em Liege, o outomno foi muito chuvoso, o que fez levantar o preço do paõ. A malquerença publicou que aquellas chuvas continuas e aquella carestia de paõ eram devidas a este maldito espelho: Formou-se um grande ajuntamento tumultuoso que se dirigio a caza de Villette para o maltratar e quebrar o seu espelho ardente. Felizmente a cidade de Liege era governada por um prelado esclarecido. [...]

O relato de Julia de Fontenelle continua com a transcrição da carta pastoral de Joseph Clement, bispo e príncipe de Liège (etc.), enviada aos curas e padres da sua jurisdição:
[...] Tendo-se-nos muito respeitosamente representado que se tinha espalhado um motim, na nossa cidade de Liege, que o chamado N. F. Villette, residente ha 15 ou 18 annos nesta cidade, attrahia com o seu espelho as chuvas com que o nosso paiz e os lugares circumvisinhos saõ castigados dos seus peccados, achamo-nos obrigados, pelo cuidado que devemos ter no nosso rebanho, a declarar, como fazemos por meio d’esta, que é um erro semeado pelos ignorantes ou mal intencionados, ou mesmo pelo espirito de malicia, que, affastando o nosso povo da ideia e da segurança de que é pelos seus peccados que elle é castigado, lhe faz attribuir a um espelho o castigo de Deos. Eis porque declaramos que este espelho naõ produz nem pode produzir senaõ effeitos naturaes e muito curiosos, e que, julgar que elle attrahe ou produz as chuvas, e attribuir-lhe assim o poder d’abrir ou fechar o Ceo, o que naõ pertence senaõ a Deos, seria uma reprehensivel superstiçaõ.
Ordenamos aos nossos curas e pregadores da nossa doutrina, a quem este erro possa ter enganado, de dispersuadir o povo de tal erro.

E Luís Miguel Bernardo conclui:
A Villette e ao seu espelho ardente valeu o bom senso do bispo Clement.

Não sei se será intencional, mas o autor de Histórias da Luz e das Cores parece mais cauteloso na escolha das palavras do que a autora do século XIX, que brinda o bispo de Liège com o epíteto de «prelado esclarecido». Wishful thinking: conforme se conclui das palavras de Clement, ao prelado não o movia a luta contra a ignorância e a superstição, mas a defesa da ignorância que mais lhe convinha.

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24 abril 2007

#  Azinhaga dos Besouros Teológica

'A Descida ao Limbo'A Igreja Católica acabou com o Limbo. Sem contemplações, entrou com os buldozers pelo bairro dentro, demoliu as barracas onde há séculos se abrigavam as criancinhas mortas sem baptismo (e outros ilegais) e seguiu em frente.

Ontem, um cónego explicava perante as câmaras que — tal como a Brandoa dos anos 1960-70 ou o Poceirão dos últimos anos, tal como as barracas da Estrada Militar do Alto da Damaia ou da Quinta da Caiada — o Limbo nunca foi oficialmente reconhecido pelo Catecismo (espécie de PDM teológico, presume-se). Os buldozers tinham, por isso, toda a legitimidade para entrar.

Resta saber o destino dos pobres desalojados. Ou a forma como vai a Igreja reabilitar a zona: parque urbano ou especulação imobiliária?

Finalmente, deixo para os tablóides a devassa da vida íntima: afinal, por onde andava realmente Jesus, quando nos diziam que tinha descido ao Limbo?...

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23 março 2007

#  Just how funny is it, anyway?...

Eis um dos “links patrocinados” do Gmail, com o qual me acabo de deparar:

Livros Cristão Gratuitos: Divirta-se com livros Cristãos Gratuitos sobre o evangelho da salvação
Por incrível coincidência, numa outra janela do browser estava a ler um artigo na New Yorker, onde encontro este cartoon de Matthew Diffee:

(c) Matthew Diffee / The New Yorker
Não sei com qual me ria mais...

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22 março 2007

#  Inaceitável

Ouço no telejornal da RTP que uma juíza indeferiu um pedido de divórcio por maus-tratos apresentada por uma muçulmana, exactamente por a queixosa ser muçulmana e os maus-tratos (por parte do marido) serem aceites pela lei islâmica.

ISTO É INACEITÁVEL!

Não preciso de ouvir o resto da notícia, não preciso de saber os pormenores, as «circunstâncias» para afirmar:

ISTO É INACEITÁVEL!

Qual caruncho, o «relativismo cultural» anda a roer as bases dos valores humanistas europeus. Urge combater essa praga, urge reafirmar os nossos valores.
E não é por os valores da civilização Ocidental serem «universais», como tantas vezes se diz (pois é exactamente o contrário: se fossem universais não haveria necessidade de defendê-los).

Os nossos valores têm de ser defendidos porque são melhores.

(OK, está dito — porque não tenho dúvidas quanto a isso.)


Valha-nos ao menos saber que a decisão da juíza chocou muitos membros da comunidade islâmica alemã: pessoas que puderam verificar pessoalmente, nas suas vidas, a superioridade dos valores ocidentais.

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#  Criacionismo vs. Evolucionismo

(c) Alex Gregory / The New Yorker
«Parece-me que é aqui que nos separamos.»

© Alex Gregory / The New Yorker (08/01/2007)




(Em todo o rigor, como é sabido, não é só o cristianismo evangélico que recusa a Teoria da Evolução...)

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#  Mente aberta

(c) Robert Mankoff / The New Yorker
Padre: «Desaparece!»

© Robert Mankoff / The New Yorker (17/10/2005)

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19 março 2007

#  Os livros, o Livro e as pedras

Através do blogue do Tiago Barbosa Ribeiro chego ao excerto de um interessante debate entre Wafa Sultan (psicóloga árabe-americana) e o clérigo muçulmano Ibrahim Al-Khouly, ocorrido na televisão Al-Jazira há pouco mais de um ano:


O vídeo está legendado em inglês, mas destaco estas duas breves passagens:

Wafa Sultan na Al-Jazira
Quem lhe disse que eles são [parte do] «Povo do Livro»? Eles não são um Povo do Livro, eles são um povo de muitos livros. Todos os livros científicos úteis que temos actualmente são deles, fruto do seu pensamento livre e criativo.


Wafa Sultan na Al-Jazira
Eu não sou cristã, nem muçulmana, nem judia. Sou um ser humano laico. Não acredito no sobrenatural, mas respeito o direito de os outros acreditarem nisso. [...] Irmão, pode acreditar em pedras, desde que não mas atire.

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15 março 2007

#  Pentagrama

Hoje, o Rui escreveu tudo o que eu gostaria de ter escrito, se por acaso soubesse o que se passa no mundo:
  1. Volta, João Paulo
  2. Canto mono
  3. Casamento e divórcio
  4. Prioridades

Obrigado, Rui! Ler-te valeu-me o dia.

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02 fevereiro 2007

#  Que nunca deixem de acreditar!

Ontem ao fim da tarde ocorreu algo de estranho: de repente, todos os blogues do Sim que frequento (incluindo o meu) deixaram de funcionar. Estranhamente, os do Não funcionavam. (Aos mais dados a teorias da conspiração, explico que o que se passou foi uma falha na nova versão do Blogger, que é a usada pelos blogues do Sim mas não pelos blogues do Não a que tive acesso.)

Assim, querendo saber o que se ia passando na campanha, visitei o “Blogue do Não”, onde reparei num post sobre certas declarações de Maria Antónia Palla (apoiante do Sim), que são não só inaceitáveis (porque injustas e difamatórias), como contraproducentes: um regalo, um fartar-vilanagem para os apoiantes do Não, exactamente aquilo que não queremos nesta campanha. Quando dei por mim, estava a participar no debate...

Gostaria de dizer que a troca de comentários decorreu nos estritos limites da civilidade e do bom senso. Não sendo assim (como não foi), gostaria de poder dizer que ao menos me salvei eu, magnânime: também nem sempre assim foi, pois palavra puxa palavra, a ignorância (legal, filosófica, interpretativa) que por lá encontrei é frequentemente confrangedora ao ponto de ser exasperante (para não falar de outras coisas, como uma clara tónica no carácter quase punitivo da obrigação de manter a gravidez...), que um homem não é de ferro e acaba por perder momentaneamente as estribeiras.

O âmbito da discussão foi vasto (mais de meia centena de comentários), pelo que remeto para lá quem quiser saber os pormenores. No entanto (maquiavelicamente, dirão alguns), permito-me destacar aqui uma breve, que ilustra bem esta minha conclusão (que já não é de hoje, porque vai muito além do tema do aborto), conclusão que exprimo na forma de desejo pessoal:

Que certas pessoas do Não nunca deixem de acreditar na humanidade plena do feto!

O que se passou foi que eu, a certa altura, respondendo a uma acusação de hipocrisia (os do Sim que se dizem «contra o aborto»), escrevi:
«Isso de sermos “contra o aborto” depende do que se entende por “ser contra” e “ser a favor”.
Se por “ser a favor do aborto” entende achar que o aborto é uma coisa agradável de se fazer, uma coisa desejável — então não sou a favor e, se a alternativa for apenas “ser contra”, eu sou contra.
Mas repare: não é uma coisa agradável nem desejável para a mulher (traz riscos associados); a minha única preocupação é a mulher — o feto para mim não é relevante (nadinha).
Mas se por «ser a favor do aborto» entende defender que é uma opção legítima (ética e moralmente) para a mulher, então eu sou a favor.
O meu único dilema moral é relativamente a abortos muito tardios (após os 6 meses, mais ou menos), pois nessa altura a mulher pode dizer: «Não quero este ser dentro de mim! TIREM-MO!» e para tal não é preciso abortar — basta uma cesariana e uma encubadora, entregando a criança (agora sim, porque nasceu) à guarda do Estado.
Enquanto o feto não for viável cá fora (com recurso a encubadora, pois claro); enquanto depender totalmente, não apenas de uma pessoa, mas de uma pessoa em concreto; enquanto isso acontecer eu em consciência não considero aquele feto como um ser autónomo, logo, dotado de personalidade jurídica e direitos. E para mim é um direito inalienável da mulher livrar-se daquele ser que está dentro de si.»

Obviamente, a minha declaração mais bombástica, foi imediatamente aproveita por um tal de Joaquim Amado Lopes:
«[citando-me:] “o feto para mim não é relevante (nadinha)”
Interessante. Suponho então que, quando alguém lhe diz lhe que teve um aborto espontâneo, o Fernando responde: “E...?”»

Segue-se a minha resposta, exactamente conforme a pus no “Blogue do Não” (não a ponho na forma de citação por ser a parte relevante para a conclusão que apresentei antes):

Supõe mal, porque não sabe interpretar o que lê. Eu disse que o feto não me interessava nadinha. Se para a mulher grávida o aborto espontâneo foi emocionalmente doloroso, porque queria ter filhos, eu condoo-me dela — porque ela (uma vez mais) está a sofrer. Por isso nunca diria isso, nunca demonstraria essa indiferença.

E para acabar, digo-lhe que me congratulo por o senhor Joaquim Amado Lopes dar tanto valor ao feto, pois da sua (errada) suposição deduzo que, se lhe desse o mesmo pouco valor que eu dou*, seria essa («E...?») a resposta que o senhor Joaquim Amado Lopes daria a uma mulher que lhe dissesse que sofrera um aborto espontâneo!

Eu não preciso de dar valor ao feto para dar valor aos sentimentos e às mágoas de uma mulher — mas o senhor Joaquim Amado Lopes precisa. A bem dos sentimentos das mulheres que o senhor Joaquim Amado Lopes conhece, desejo que nunca mude de opinião quanto ao valor do feto!


* Já esta manhã, e em resposta aos comentários de outro participante, expliquei melhor:
«Percebeu-me mal, Sr. Rui Fernandes (but what else is new?...). Eu não sou «indiferente à vida humana na fase de feto» (e não pense que estou a fazer a palinódia do que aqui escrevi ontem.
O que eu disse é que, numa fase em que o feto é inviável extra-uterinamente, se a mulher deseja abortar, o feto para mim é irrelevante, pois os interesses da mulher para mim prevalecem sempre. É nesse sentido que sou “indiferente ao feto” — porque ele não é factor que me faça defender que a decisão da mulher deva ser questionada ou mesmo proibida.
É nesse sentido que «não dou valor ao feto». Trata-se, simplesmente, de não lhe dar um valor maior do que aquela que lhe é mais próxima — a mulher que o carrega no ventre — lhe dá!
Já no caso de uma gravidez desejada (mesmo que não planeada), se a mulher dá importância ao feto (porque vê nele o prenúncio de um filho que aí vem), então eu não digo que o feto “não tem valor”.

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25 janeiro 2007

#  Deus e o aborto: desfazendo alguns mitos

Mas uma coisa é reconhecer à Igreja Católica o direito de, arbitrariamente, ditar as regras por que se rege o seu rebanho — outra bem diferente é fechar os olhos às incongruências que surgem quando fundamenta os seus ditames comportamentais (que quer impor mesmo àqueles que não se inscrevem entre os seus) em valores supostamente absolutos e claros. Um desses valores é a vida, em que a Igreja inclui a vida intra-uterina.
(Digo «a Igreja», porque a Lei portuguesa distingue as duas coisas: o Código Penal coloca em capítulos diferentes os «crimes contra a vida» e os «crimes contra a vida intra-uterina».)

Voltando à argumentação da Igreja Católica, a recusa do aborto fundamentar-se-ia, supostamente, na sacralidade absoluta da vida, expressa no interdito divino do Decálogo («Não matarás», Êxodo 20:13) e, antes disso, no significativo episódio de Caim, o fratricida a quem Deus apesar de tudo protege (Génesis 4:14–15), não deixando que o façam pagar pelo seu crime com a morte.
(Estas passagens servem também para argumentar contra a existência da pena de morte — pena a que eu me oponho a 100%, em todo e qualquer caso, mas que, estranhamente, é admitida em determinadas circunstâncias pela Igreja Católica.)

Mas convém desmontar tais interpretações, porque:
  1. nem para Deus (segundo a Bíblia) a vida é um valor absoluto;
  2. nem o feto é equiparado a um ser humano;
  3. nem, consequência do anterior, o aborto é equiparado ao homicídio.

Vejamos:

1. Para Deus (segundo a Bíblia) a vida não é um valor absoluto.
Vou passar este argumento sem mais delongas, pois é lateral à nossa questão. As provas desta minha afirmação encontram-se por toda a Bíblia (com muita morte caucionada por Deus), e de forma particularmente clara nos capítulos 21 e 22 do Êxodo.

2. Para Deus (segundo a Bíblia) o feto não é equiparável a um ser humano.
3. Para Deus (segundo a Bíblia) o aborto não é equiparável ao homicídio.
A prova de prova de 2 obtém-se da prova de 3: ao não prescrever para o aborto a mesma pena que para o homicídio, conclui-se que Deus não equipara o feto a um ser humano, sendo muito menos grave abortar do que matar alguém. E é exactamente o que acontece em Êxodo 21:22:
«Se alguns homens brigarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, não resultando, porém, outro dano, este certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e pagará segundo o arbítrio dos juízes;»
Ou seja, enquanto o homicídio (Êxodo 21:12) e muitos outros crimes são punidos com a pena de morte, o aborto é um mero objecto de sanção pecuniária: quem provoca o aborto numa mulher (sem ser a pedido dela) deve indemnizar a família lesada. O aborto (uma vez mais, provocado por terceiros sem ser a pedido da grávida) só passa a ser crime se puser em perigo a vida da mulher, conforme se pode deduzir do versículo 23 do mesmo capítulo:
«mas se resultar dano, então darás vida por vida,»
Conclusão: o que é crime é o dano provocado à mulher, não ao feto.


E o que diz Deus quanto ao aborto feito a pedido da mulher? Nada, pelo menos a julgar pela Bíblia.
A palavra «aborto» (ou melhor, alguma forma do verbo «abortar» ou equivalente) só aparece na Bíblia por duas (ou talvez três) vezes: no versículo já citado; no livro de Oseias (9:14), em que o profeta pede a Deus que castigue o Povo Eleito (tornado iníquo) com «um útero que aborte e seios ressequidos»; e talvez no Salmo 29, versículo 9, em que a temerosa voz de Deus é apresentada como «fazendo as corças dar à luz» [subentende-se que antes do tempo, provocando-lhes o aborto].

Ou seja, para além de Deus apenas prescrever penas para o aborto provocado por terceiros contra a vontade da mulher (à semelhança do n.º 1 do Artigo 140.º do Código Penal português, mas sendo Deus mais brando), a Bíblia só volta a falar no assunto em sentido figurado (como sinal da ira ou do poder divino). E mais nada. Nenhuma criminalização da mulher que decide abortar.
Por isso, quem se opõe às alterações aos números 2 e 3 do Artigo 140.º do Código Penal (que tratam das penas de prisão para o aborto com consentimento da mulher) — e é disso que o Referendo trata — tem de procurar outro sítio para sustentar a sua posição. No registo da sua palavra que Deus nos deixou nada consta.

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#  Fé e aborto

Já se disse várias vezes (de ambos os lados da questão) que o Referendo ao aborto não é uma questão religiosa, mas é inegável que entre os crentes o factor religioso pesa.

Ao contrário do que acontece com alguns dos meus “correligionários” do campo do Sim, não me choca que a Igreja Católica (ou algum dos seus prelados) ameace com o estigma da excomunhão aqueles que praticarem aborto. As congregações religiosas são “clubes” onde, se a maior parte não entra por sua escolha — ainda não tinha idade para tal —, pelo menos permanece lá de livre vontade (quer dizer, a “livre vontade” é induzida à custa de muita pressão social à mistura, mas pelo menos já não existe uma imposição legal nesse sentido). Assim sendo, como “clube” que é, a Igreja Católica tem o direito de impor as regras que muito bem entender (dentro da legalidade do Estado) para que os membros sejam aceites como tal. E recusar a comunhão ou condenar ao anátema não me parece ferir os direitos constitucionais dos cidadãos que, cumulativamente, são também católicos.

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02 janeiro 2007

#  Eu é que falo com Cristo!

No Diz Que É Uma Espécie de Magazine de ontem, Ricardo Araújo Pereira desancou exemplarmente aquele que foi um dos principais bombos da festa do tempo em que o Gato Fedorento era apenas um blogue: Alexandra Solnado e a sua série de livros mediúnicos Este Jesus Cristo Que Vos Fala (exemplos aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Agora espera-se a reacção de Alexandra Solnado. Ela, por sua vez, espera a reacção de Jesus Cristo.

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