foto: Bruno Espadana

20 outubro 2009

#  Verdade e intenção

É uma falácia a acusação de que as declarações de Saramago são uma manobra publicitária. Não porque não seja verdade: é. Mas porque esse facto em nada nega a verdade das declarações dele. Ter interesses económicos e mediáticos no que se diz não impede que seja certeiro o que se diz. E Saramago é certeiro.

De igual forma, é uma falácia acusar certos políticos de tentarem tirar dividendos dos escândalos que envolvem os seus adversários, pretendendo com isso “provar” que os escândalos são infundados; uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se for verdade, ela permanece, mesmo que os movam interesses inconfessáveis ou até motivos sórdidos. A verdade dos nossos actos e palavras (bons ou maus) não se mede pela grandeza ou baixeza moral dos nossos adversários.

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27 outubro 2007

#  Não me lembra nada nem ninguém (4)

Ilustração de Jason Holley
Ilustração de Jason Holley

  • inferior predictive structure (estrutura preditiva inferior)
  • frontal stupidity lobe (lobo frontal da estupidez)
  • CNBC gibberish cortex (córtex da léria da CNBC)
  • corpus credulum
  • neo-bovine herd-mentalitum (mentalitum da manada neo-bovina)
  • logic void (vazio lógico)
  • falsehood persistence node (nodo da persistência na falsidade)
  • arithmetical impossibility rationalization complex (complexo da racionalização das impossibilidades aritméticas)
  • price decline overreaction region (região da reacção exagerada à baixa de preços)
  • guru-bloviation acceptance ganglia (gânglios da aceitação do palavreado do guru)
  • beer (cerveja)
  • inappropriate enthusiasm nucleus (núcleo do entusiasmo inapropriado)
  • historical lesson rejection lobe (lobo da rejeição das lições da história)

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28 setembro 2007

#  Quem te avisa, teu amigo é...

No Público online:
O responsável pela Igreja Católica de Moçambique, o arcebispo Francisco Chimoio, acusa dois países europeus de quererem matar a população de África com o vírus da sida. Em declarações à BBC, o arcebispo de Maputo disse que os preservativos e os medicamentos anti-retrovirais que chegam ao país estão infectados.

Por isso é que a Igreja Católica é contra o uso do preservativo! Eu sabia que havia alguma razão ponderosa...


(Reveladora, esta estratégia “à Mugabe” do responsável da Igreja Católica moçambicana: aquele culpa “os Brancos” da situação catastrófica do Zimbabwe; este faz coro, atribuindo-lhes a responsabilidade dolosa da progressão galopante da sida em África...)

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07 setembro 2007

#  Deus, o Mal e o livre-arbítrio

No site da FNAC deparo-me com esta publicidade ao último livro de Luís Miguel Rocha, autor de O Último Papa:

«Nenhuma bala pode matar se essa não for a Sua vontade»: Irmã Lúcia numa carta a João Paulo II
A Igreja sempre meteu os pés pelas mãos quando chega a altura de lidar com a Inconciliabíssima Trindade.

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24 abril 2007

#  Azinhaga dos Besouros Teológica

'A Descida ao Limbo'A Igreja Católica acabou com o Limbo. Sem contemplações, entrou com os buldozers pelo bairro dentro, demoliu as barracas onde há séculos se abrigavam as criancinhas mortas sem baptismo (e outros ilegais) e seguiu em frente.

Ontem, um cónego explicava perante as câmaras que — tal como a Brandoa dos anos 1960-70 ou o Poceirão dos últimos anos, tal como as barracas da Estrada Militar do Alto da Damaia ou da Quinta da Caiada — o Limbo nunca foi oficialmente reconhecido pelo Catecismo (espécie de PDM teológico, presume-se). Os buldozers tinham, por isso, toda a legitimidade para entrar.

Resta saber o destino dos pobres desalojados. Ou a forma como vai a Igreja reabilitar a zona: parque urbano ou especulação imobiliária?

Finalmente, deixo para os tablóides a devassa da vida íntima: afinal, por onde andava realmente Jesus, quando nos diziam que tinha descido ao Limbo?...

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15 março 2007

#  Pentagrama

Hoje, o Rui escreveu tudo o que eu gostaria de ter escrito, se por acaso soubesse o que se passa no mundo:
  1. Volta, João Paulo
  2. Canto mono
  3. Casamento e divórcio
  4. Prioridades

Obrigado, Rui! Ler-te valeu-me o dia.

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06 fevereiro 2007

#  Só para lembrar

Frei Bento Domingues, Público, 28/01/2007:
Creio que é compatível o voto na despenalização e ser — por pensamentos, palavras e obra — pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O “SIM” à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, embora haja sempre doidos e doidas para tudo.

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25 janeiro 2007

#  Deus e o aborto: desfazendo alguns mitos

Mas uma coisa é reconhecer à Igreja Católica o direito de, arbitrariamente, ditar as regras por que se rege o seu rebanho — outra bem diferente é fechar os olhos às incongruências que surgem quando fundamenta os seus ditames comportamentais (que quer impor mesmo àqueles que não se inscrevem entre os seus) em valores supostamente absolutos e claros. Um desses valores é a vida, em que a Igreja inclui a vida intra-uterina.
(Digo «a Igreja», porque a Lei portuguesa distingue as duas coisas: o Código Penal coloca em capítulos diferentes os «crimes contra a vida» e os «crimes contra a vida intra-uterina».)

Voltando à argumentação da Igreja Católica, a recusa do aborto fundamentar-se-ia, supostamente, na sacralidade absoluta da vida, expressa no interdito divino do Decálogo («Não matarás», Êxodo 20:13) e, antes disso, no significativo episódio de Caim, o fratricida a quem Deus apesar de tudo protege (Génesis 4:14–15), não deixando que o façam pagar pelo seu crime com a morte.
(Estas passagens servem também para argumentar contra a existência da pena de morte — pena a que eu me oponho a 100%, em todo e qualquer caso, mas que, estranhamente, é admitida em determinadas circunstâncias pela Igreja Católica.)

Mas convém desmontar tais interpretações, porque:
  1. nem para Deus (segundo a Bíblia) a vida é um valor absoluto;
  2. nem o feto é equiparado a um ser humano;
  3. nem, consequência do anterior, o aborto é equiparado ao homicídio.

Vejamos:

1. Para Deus (segundo a Bíblia) a vida não é um valor absoluto.
Vou passar este argumento sem mais delongas, pois é lateral à nossa questão. As provas desta minha afirmação encontram-se por toda a Bíblia (com muita morte caucionada por Deus), e de forma particularmente clara nos capítulos 21 e 22 do Êxodo.

2. Para Deus (segundo a Bíblia) o feto não é equiparável a um ser humano.
3. Para Deus (segundo a Bíblia) o aborto não é equiparável ao homicídio.
A prova de prova de 2 obtém-se da prova de 3: ao não prescrever para o aborto a mesma pena que para o homicídio, conclui-se que Deus não equipara o feto a um ser humano, sendo muito menos grave abortar do que matar alguém. E é exactamente o que acontece em Êxodo 21:22:
«Se alguns homens brigarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, não resultando, porém, outro dano, este certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e pagará segundo o arbítrio dos juízes;»
Ou seja, enquanto o homicídio (Êxodo 21:12) e muitos outros crimes são punidos com a pena de morte, o aborto é um mero objecto de sanção pecuniária: quem provoca o aborto numa mulher (sem ser a pedido dela) deve indemnizar a família lesada. O aborto (uma vez mais, provocado por terceiros sem ser a pedido da grávida) só passa a ser crime se puser em perigo a vida da mulher, conforme se pode deduzir do versículo 23 do mesmo capítulo:
«mas se resultar dano, então darás vida por vida,»
Conclusão: o que é crime é o dano provocado à mulher, não ao feto.


E o que diz Deus quanto ao aborto feito a pedido da mulher? Nada, pelo menos a julgar pela Bíblia.
A palavra «aborto» (ou melhor, alguma forma do verbo «abortar» ou equivalente) só aparece na Bíblia por duas (ou talvez três) vezes: no versículo já citado; no livro de Oseias (9:14), em que o profeta pede a Deus que castigue o Povo Eleito (tornado iníquo) com «um útero que aborte e seios ressequidos»; e talvez no Salmo 29, versículo 9, em que a temerosa voz de Deus é apresentada como «fazendo as corças dar à luz» [subentende-se que antes do tempo, provocando-lhes o aborto].

Ou seja, para além de Deus apenas prescrever penas para o aborto provocado por terceiros contra a vontade da mulher (à semelhança do n.º 1 do Artigo 140.º do Código Penal português, mas sendo Deus mais brando), a Bíblia só volta a falar no assunto em sentido figurado (como sinal da ira ou do poder divino). E mais nada. Nenhuma criminalização da mulher que decide abortar.
Por isso, quem se opõe às alterações aos números 2 e 3 do Artigo 140.º do Código Penal (que tratam das penas de prisão para o aborto com consentimento da mulher) — e é disso que o Referendo trata — tem de procurar outro sítio para sustentar a sua posição. No registo da sua palavra que Deus nos deixou nada consta.

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#  Fé e aborto

Já se disse várias vezes (de ambos os lados da questão) que o Referendo ao aborto não é uma questão religiosa, mas é inegável que entre os crentes o factor religioso pesa.

Ao contrário do que acontece com alguns dos meus “correligionários” do campo do Sim, não me choca que a Igreja Católica (ou algum dos seus prelados) ameace com o estigma da excomunhão aqueles que praticarem aborto. As congregações religiosas são “clubes” onde, se a maior parte não entra por sua escolha — ainda não tinha idade para tal —, pelo menos permanece lá de livre vontade (quer dizer, a “livre vontade” é induzida à custa de muita pressão social à mistura, mas pelo menos já não existe uma imposição legal nesse sentido). Assim sendo, como “clube” que é, a Igreja Católica tem o direito de impor as regras que muito bem entender (dentro da legalidade do Estado) para que os membros sejam aceites como tal. E recusar a comunhão ou condenar ao anátema não me parece ferir os direitos constitucionais dos cidadãos que, cumulativamente, são também católicos.

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#  Bin Laden agradece

Leio no site do movimento “Vida, Sempre!” o seguinte argumento de «gente de peso»:
«Um país que aceita o aborto não está a ensinar os seus cidadãos a amar, mas a usar a violência para obterem o que querem. É por isso que o maior destruidor do amor e da paz é o aborto
(Teresa de Calcutá)

Quanto à primeira parte (que não destaquei), digo apenas que não me parece que entre as “obrigações” de um «país» esteja a de «ensinar os seus cidadãos a amar»... mas adiante.
Quanto à parte destacada: tais extremos retóricos («o maior destruidor»!) trazem-me à lembrança declarações mais recentes:
O Papa Bento XVI comparou hoje [01/01/2007] o aborto e as pesquisas em embriões ao terrorismo. Na homilia do Dia Mundial da Paz, o líder da Igreja Católica considerou que estas práticas constituem “um atentado contra a paz”.

Bin Laden y sus muchachos agradecem — raramente pessoas de tanto «peso» caucionaram (por banalizarem) a este ponto as suas acções criminosas.

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#  E eu sei-o, porque o dedo está na extremidade do meu braço...

Tem a palavra o Sr. Bispo de Viseu:
«A mulher é a última, é a vítima de toda a situação do aborto. Fica na solidão, no abandono, fica no esquecimento, numa sociedade que apenas aponta o dedo

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20 dezembro 2006

#  Bem dito

Carlos Azevedo, bispo, secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, in suplemento de Natal da revista Sábado n.º 136, de 7 a 13 de Dezembro de 2006:
«A santa com mais devoção em Portugal é a santa ignorância.»

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24 setembro 2006

#  Li e concordei (2)

De Miguel Sousa Tavares, no Expresso de ontem:
Inadvertidamente ou não, o Papa não disse nada sobre o Islão que nenhum ocidental não pense. Quando citou o Imperador bizantino Manuel II, dizendo “mostra-me aquilo que Maomé trouxe de novo e encontrarás só coisas mas e desumanas”, como “o direito de difundir a fé pela espada”, o Papa disse exactamente aquilo que todos nós pensamos hoje sobre o que significa fundamentalmente a corrente dominante no Islão: o direito a mandar, a aterrorizar e a matar em nome de Deus. [...]
[...]
Mas o que o Papa disse sobre o Islão, fingindo que não queria dizer, é exactamente o mesmo que se poderia dizer sobre qualquer outra religião, incluindo a católica. [...] E não foi a Igreja que mudou, mas a Revolução Francesa que ensinou os homens a mudar, contra a Igreja. Se olharmos para os dois mil anos de história depois do Novo Testamento [...], encontraremos as mesmas “coisas más e desumanas”, a mesma apologia de divulgar a fé através da espada. [...]

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02 setembro 2006

#  Ainda a propósito da Evolução (e) do Vaticano...

(c) 1993 Roz Chast / The New Yorker

FUTUROS ANÚNCIOS DO VATICANO

3419 d. C. Demócrito estava certo. O átomo existe.
5667 d. C. Pode admitir-se que a teoria da evolução de Darwin estava bastante certa.
8029 d. C. Afinal, talvez o controlo da natalidade não seja uma ideia assim tão terrível.

Cartoon de Roz Chast / The New Yorker

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01 setembro 2006

#  Evolução... qual evolução?

Leio no Público online:

Irá o Papa rejeitar a teoria da evolução e aceitar o criacionismo?

O Papa Bento XVI junta hoje e amanhã alguns dos seus antigos estudantes de Teologia, para debater a evolução e a religião. Esta iniciativa está a ser encarada como o apoio por parte do Vaticano da posição de alguns grupos cristãos conservadores, sobretudo norte-americanos: a recusa da teoria da evolução através da selecção natural, formulada pelo naturalista britânico Charles Darwin no século XIX.
[...]
Os blogues e sítios sobre ciência e religião estão cheios de discussões sobre se esta reunião significa que o Vaticano vai assumir uma postura mais crítica em relação à teoria da evolução, talvez até abraçando o criacionismo ou a teoria da concepção inteligente, nas suas roupagens mais modernas.

Eu, crítico que sou da Igreja católica (et alli), consigo compreender — até certo ponto — a sua renitência em aceitar a Teoria da Evolução. Por exemplo, é impossível explicar como, através da evolução, se chega a Joseph Ratzinger.

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08 junho 2006

#  Não se confirmou

Ontem fui ver O Código Da Vinci. Contrariamente aos receios da Igreja Católica e da Opus Dei, não fiquei com pior opinião da Igreja Católica e da Opus Dei.

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23 maio 2006

#  Comes with the territory

Escrevia ontem Pedro Mexia no seu blogue:
Que João César das Neves seja ultramontano tanto se me dá como se me deu. Acho que até cumpre uma função lúdica. O que chateia é o modo como ele propaga alucinantes ilusões sobre a natureza humana. Nem os marxistas mais beatos e dogmáticos dizem tantas tolices sobre a nossa natureza.

João César das NevesCaro Mexia, o “ludismo” de João César das Neves resulta da forma involuntariamente caricatural, quase de comédia bufa, como ele é ultramontano. O que é indissociável da propagação de «alucinantes ilusões sobre a natureza humana», de ser «beato e dogmático» e de dizer «tolices sobre a nossa natureza»: uma e outra coisa são mais do que o anverso e o reverso da medalha — são causa e efeito. Se o efeito te «chateia», a causa não te pode ser indiferente. Decide-te.

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13 maio 2006

#  Tss tss...

Monsenhor Angelo Amato queixa-se das faltas de respeito à fé cristã. Pergunto-me o que pensaria se soubesse que o JN de ontem se referia ao beato-pastorinho Francisco Marto como «consolador de Deus»...

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12 maio 2006

#  Tudo (erradamente) no mesmo saco

As palavras de Monsenhor Angelo Amato, que citei anteontem («[If] such lies and errors had been directed at the Koran or the Holocaust, they would have justly provoked a world uprising») suscitam-me alguns comentários adicionais.

O primeiro é que o porta-voz do Vaticano mete no mesmo saco coisas que são bem diferentes. Pôr a negação do Holocausto nazi no mesmo plano da negação («mentiras e erros», nas palavras do prelado) dos relatos bíblicos ou corânicos é uma equiparação falaciosa.
O Holocausto nazi é um facto histórico; o acontecimento em si, as suas motivações e mesmo os números envolvidos não andarão muito longe da verdade. A História baseia-se na observação dos acontecimentos, na consulta de fontes fidedignas e na procura/proposta de conclusões. No caso do Holocausto, eventuais imprecisões (inevitáveis em História — e, de modo geral, em todas as Ciências, mesmo as “exactas”) não alteram fundamentalmente o cerne da questão.
Já a Bíblia (nas suas versões judaica e cristã) ou o Corão não tratam de factos históricos. Quanto muito, reportam-se a factos religiosos — o que é uma maneira arrevesada de dizer “não-factos”. As suas conclusões (permitam-me abusar da palavra) baseiam-se na premissa de que o Livro Sagrado em causa resulta de inspiração divina, no caso do Judaísmo e do Cristianismo, ou tem uma natureza para-divina (é coexistente a Deus), no caso do Islão.

Segundo comentário: nos dois casos apresentados por Angelo Amato — a negação do Holocausto e os insultos ao Islão —, a forma de manifestação do «world uprising» é bem diferente em termos de civilidade, pelo que também não é cordato equipará-las. No caso dos “desentendimentos” com o Islão, a resposta dos seguidores deste é a sabida: ameaças de morte, assassinatos, tumultos, atentados; em contraste, a resposta à negação do Holocausto passa geralmente pelos tribunais. Pergunto-me que tipo de «world uprising» preconiza Monsenhor Angelo Amato como resposta a O Código Da Vinci e outras dissidências face à ortodoxia católica...

Finalmente, e em relação ao comentário anterior, falta dizer que, apesar de eu não ter dúvidas quanto à veracidade do Holocausto nazi, sou totalmente contra a criminalização da sua negação — como, de resto, contra todo o tipo de instituição de “delitos de opinião”. (Note-se que é uma coisa diferente basear na negação do Holocausto a conclusão de que Israel não tem direito a existir e deveria ser «riscado do mapa».)
Se afirmar coisas mais facilmente refutáveis — digamos, «a Terra é plana e o Sol orbita à sua volta» — não dá direito a processo judicial, tão-só (?) ao ridículo e ao descrédito generalizado, por que razão há-de a afirmação de que o Holocausto não aconteceu merecer tratamento diferente? No caso da Alemanha, sabemos qual é a resposta: a criminalização é a forma encontrada pelo Estado alemão democrático para dissipar qualquer dúvida de que abjura as práticas do Estado nazi que o precedeu. Mas o efeito catárctico de um acto de contrição não deve obscurecer a verdade: que criminalizar a simples expressão de opiniões, mesmo que “inegavelmente erradas”, é fundamentalmente antidemocrático.

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10 maio 2006

#  «Por aí se vai...»

Segundo o The Times,
In contrast to a Vatican statement last week condemning the 40-million bestseller, Opus Dei and the Catholic Church in England and Wales intend to capitalise on the interest created by the book to win converts.
[...] The bishops, including Cardinal Cormac Murphy-O’Connor, are intending to remain aloof from the controversy but are understood to regard the book and film as “teaching opportunities”, not heresies.
(Um portal católico indiano utilizou mesmo a expressão «a chance to explain faith».)

Isto de «explicar a fé» devolve-me memórias da infância — de quando eu nas minhas brincadeiras rompia ligeiramente uma peça de roupa e a minha mãe dizia, em jeito de vaticínio: «Por aí se vai...»

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