foto: Bruno Espadana

20 outubro 2009

#  Verdade e intenção

É uma falácia a acusação de que as declarações de Saramago são uma manobra publicitária. Não porque não seja verdade: é. Mas porque esse facto em nada nega a verdade das declarações dele. Ter interesses económicos e mediáticos no que se diz não impede que seja certeiro o que se diz. E Saramago é certeiro.

De igual forma, é uma falácia acusar certos políticos de tentarem tirar dividendos dos escândalos que envolvem os seus adversários, pretendendo com isso “provar” que os escândalos são infundados; uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se for verdade, ela permanece, mesmo que os movam interesses inconfessáveis ou até motivos sórdidos. A verdade dos nossos actos e palavras (bons ou maus) não se mede pela grandeza ou baixeza moral dos nossos adversários.

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29 março 2008

#  Eppur è tutto vero...

27 outubro 2007

#  Não me lembra nada nem ninguém (4)

Ilustração de Jason Holley
Ilustração de Jason Holley

  • inferior predictive structure (estrutura preditiva inferior)
  • frontal stupidity lobe (lobo frontal da estupidez)
  • CNBC gibberish cortex (córtex da léria da CNBC)
  • corpus credulum
  • neo-bovine herd-mentalitum (mentalitum da manada neo-bovina)
  • logic void (vazio lógico)
  • falsehood persistence node (nodo da persistência na falsidade)
  • arithmetical impossibility rationalization complex (complexo da racionalização das impossibilidades aritméticas)
  • price decline overreaction region (região da reacção exagerada à baixa de preços)
  • guru-bloviation acceptance ganglia (gânglios da aceitação do palavreado do guru)
  • beer (cerveja)
  • inappropriate enthusiasm nucleus (núcleo do entusiasmo inapropriado)
  • historical lesson rejection lobe (lobo da rejeição das lições da história)

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12 maio 2006

#  Tudo (erradamente) no mesmo saco

As palavras de Monsenhor Angelo Amato, que citei anteontem («[If] such lies and errors had been directed at the Koran or the Holocaust, they would have justly provoked a world uprising») suscitam-me alguns comentários adicionais.

O primeiro é que o porta-voz do Vaticano mete no mesmo saco coisas que são bem diferentes. Pôr a negação do Holocausto nazi no mesmo plano da negação («mentiras e erros», nas palavras do prelado) dos relatos bíblicos ou corânicos é uma equiparação falaciosa.
O Holocausto nazi é um facto histórico; o acontecimento em si, as suas motivações e mesmo os números envolvidos não andarão muito longe da verdade. A História baseia-se na observação dos acontecimentos, na consulta de fontes fidedignas e na procura/proposta de conclusões. No caso do Holocausto, eventuais imprecisões (inevitáveis em História — e, de modo geral, em todas as Ciências, mesmo as “exactas”) não alteram fundamentalmente o cerne da questão.
Já a Bíblia (nas suas versões judaica e cristã) ou o Corão não tratam de factos históricos. Quanto muito, reportam-se a factos religiosos — o que é uma maneira arrevesada de dizer “não-factos”. As suas conclusões (permitam-me abusar da palavra) baseiam-se na premissa de que o Livro Sagrado em causa resulta de inspiração divina, no caso do Judaísmo e do Cristianismo, ou tem uma natureza para-divina (é coexistente a Deus), no caso do Islão.

Segundo comentário: nos dois casos apresentados por Angelo Amato — a negação do Holocausto e os insultos ao Islão —, a forma de manifestação do «world uprising» é bem diferente em termos de civilidade, pelo que também não é cordato equipará-las. No caso dos “desentendimentos” com o Islão, a resposta dos seguidores deste é a sabida: ameaças de morte, assassinatos, tumultos, atentados; em contraste, a resposta à negação do Holocausto passa geralmente pelos tribunais. Pergunto-me que tipo de «world uprising» preconiza Monsenhor Angelo Amato como resposta a O Código Da Vinci e outras dissidências face à ortodoxia católica...

Finalmente, e em relação ao comentário anterior, falta dizer que, apesar de eu não ter dúvidas quanto à veracidade do Holocausto nazi, sou totalmente contra a criminalização da sua negação — como, de resto, contra todo o tipo de instituição de “delitos de opinião”. (Note-se que é uma coisa diferente basear na negação do Holocausto a conclusão de que Israel não tem direito a existir e deveria ser «riscado do mapa».)
Se afirmar coisas mais facilmente refutáveis — digamos, «a Terra é plana e o Sol orbita à sua volta» — não dá direito a processo judicial, tão-só (?) ao ridículo e ao descrédito generalizado, por que razão há-de a afirmação de que o Holocausto não aconteceu merecer tratamento diferente? No caso da Alemanha, sabemos qual é a resposta: a criminalização é a forma encontrada pelo Estado alemão democrático para dissipar qualquer dúvida de que abjura as práticas do Estado nazi que o precedeu. Mas o efeito catárctico de um acto de contrição não deve obscurecer a verdade: que criminalizar a simples expressão de opiniões, mesmo que “inegavelmente erradas”, é fundamentalmente antidemocrático.

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29 abril 2006

#  Coexistência de espectro limitado

Tenho, ao longo dos anos, deparado com diversos sites (por exemplo, a Rua da Judiaria e A Origem das Espécies) que ostentam o seguinte logotipo:

Coexist
A ideia é simpática, ecuménia e tal — mas não consigo deixar de me perguntar: então e os budistas, os hindus, os xamanistas, os ateus...?

Depois penso: quanto aos budistas, aos hindus, aos xamanistas... não sei — mas nós, ateus, estamos representados no vazio entre as letras.

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19 abril 2006

#  Party-spoilers

Que mau timing — e que falta de consideração! — a desses judeus: deixarem-se matar exactamente 500 anos antes da inauguração do Casino de Lisboa...

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#  Convém não esquecer...

O apelo de Nuno Guerreiro para que os mortos do massacre de 1506 sejam recordados com velas no Rossio desencadeou fortes reacções. Sobre elas, diz o autor da Rua da Judiaria:

O assinalar do 250º aniversário do terremoto de Lisboa de 1755, em Novembro passado, não levantou em ninguém este tipo de questões (nem devia ter levantado, obviamente). Ninguém correu para os teclados a debitar prosa rancorosa nos comentários dos blogs; ninguém clamou “mas isso foi há tanto tempo, precisamos é esquecer” ou “... e então os terremotos do Irão e da Turquia, o ‘tsunami’ do Sudoeste Asiático ou as vítimas do Katrina?”; ou sequer “é preciso recordar também todas as vítimas de todas as catástrofes naturais ocorridas na história desde os tempos do Dilúvio até à desastrosa resposta da Administração Bush à tragédia do Katrina.” Ninguém se sentiu manipulado. De cabeça, lembro-me que houve extensos artigos na Imprensa, livros, reportagens de televisão, cerimónias oficiais, missas e procissões em memória das vítimas de 1755. Tudo isto sem que o relembrar desta fracção de memória fosse vista como uma qualquer maquiavélica maquinação. Mas uma tentativa semelhante para lembrar os mortos do massacre de 1506, aparentemente e para muitos, terá sempre “outra carga” — mesmo quando a data não é assinalada oficialmente; mesmo que a esmagadora maioria dos portugueses a desconheça; mesmo quando muitos apenas a descobriram recentemente, através da leitura de um notável romance histórico escrito por Richard Zimler, um judeu americano que mora em Portugal. [...]
O meu amigo Lutz Brückelmann tem razão e a sua conclusão certeira deixa-me francamente desgostoso (algo que ele também antecipou): nada disto teria acontecido se os mortos não fossem judeus portugueses; se este desafio à lembrança e à preservação da memória não tivesse sido feito por um judeu; caso não tivesse partido de um blog marcadamente judaico escrito por um judeu. Esta “questão” não existiria (nunca!) se eu não fosse quem sou...

O Nuno Guerreiro tem alguma razão, claro: não há dúvida de que os judeus continuam a... incomodar muita gente — mas não me parece que a principal razão subjacente às reacções ao seu apelo se devam ao facto de os mortos serem judeus e o apelo ter partido de um judeu. Não digo que essas não sejam razões presentes, mas penso que a principal é outra: é que a turba sanguinária, os culpados, os assassinos eram portugueses (e outros europeus) “normais”, i.e., cristãos. Ou seja, relembrar o massacre é relembrar um crime dos antepassados (de facto ou em termos culturais) da maioria dos que leram o seu apelo.

A grande “vantagem” do terramoto de 1755 é que foi uma matança sem culpados (pelo menos quanto aos mortos iniciais; depois houve linchamentos, autos-de-fé e outros que tais): assinalar a efeméride não é apontar o dedo a ninguém.
De igual forma, lembrar os mortos do Katrina tem duas (ou três) vantagens: sendo uma catástrofe natural, não se acusa ninguém; é sempre mais uma oportunidade de autocomprazimento com a nossa bondade e sensibilidade («coitadinhos dos pretos, a pena que eu senti deles...»); e — bónus que para alguns é tudo — temos mais um argumento para detestar e insultar o Bush, que, não tendo originado a catástrofe, foi negligente (ou mesmo «maquiavélico»!) na gestão da crise.

O mesmo não se passa com o pogrom de há 500 anos: houve culpados e os culpados (por “herança”) somos nós. Daí o desconforto. Obteria uma reacção igual (ou parecida) alguém — especialmente um negro — que pretendesse assinalar o massacre de Wiriamu.


P.S. Aproveito para perguntar ao Nuno Guerreiro (se por acaso ler isto) ou a quem me puder ajudar: há algum bom livro (em português, inglês ou espanhol) sobre o pogrom de 1506?

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#  O pogrom de Lisboa segundo Damião de Góis

Damião de Góis
«...Nos dois derradeiros capítulos desta primeira parte, tratarei de um tumulto e levantamento que, a dezanove de Abril de 1506, Domingo de Pascoela, houve, em Lisboa, contra os Cristãos-novos.
No mosteiro de São Domingos existe uma capela, chamada de Jesus, e nela há um Crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que deram foros de milagre, embora os que se encontravam na igreja julgassem o contrário. Destes, um Cristão-novo [julgou ver, somente], uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus. Ouvindo isto, alguns homens de baixa condição arrastaram-no pelos cabelos, para fora da igreja, e mataram-no e queimaram logo o corpo no Rossio.
Ao alvoroço acudiu muito povo a quem um frade dirigiu uma pregação incitando contra os Cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro com um crucifixo nas mãos e gritando: “Heresia! Heresia!” Isto impressionou grande multidão de gente estrangeira, marinheiros de naus vindos da Holanda, Zelândia, Alemanha e outras paragens. Juntos mais de quinhentos, começaram a matar os Cristãos-novos que encontravam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio-vivos, queimavam-nos em fogueiras que acendiam na ribeira [do Tejo] e no Rossio. Na tarefa ajudavam-nos escravos e moços portugueses que, com grande diligência, acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo. E, nesse Domingo de Pascoela, mataram mais de quinhentas pessoas.
A esta turba de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a tamanha crueldade, juntaram-se mais de mil homens [de Lisboa] da qualidade [social] dos [marinheiros estrangeiros], os quais, na Segunda-feira, continuaram esta maldade com maior crueza. E, por já nas ruas não acharem Cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade. E era tamanha a crueldade que até executavam os meninos e [as próprias] crianças de berço, fendendo-os em pedaços ou esborrachando-os de arremesso contra as paredes. E não esqueciam de lhes saquear as casas e de roubar todo o ouro, prata e enxovais que achavam. E chegou-se a tal dissolução que [até] das [próprias] igrejas arrancavam homens, mulheres, moços e moças inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de outros santos, a que o medo da morte os havia abraçado, e dali os arrancavam, matando-os e queimando-os fanaticamente sem temor de Deus.
Nesta [Segunda-feira], pereceram mais de mil almas, sem que, na cidade, alguém ousasse resistir, pois havia nela pouca gente visto que por causa da peste, estavam fora os mais honrados. E se os alcaides e outras justiças queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência que eram forçados a recolher-se para lhes não acontecer o mesmo que aos Cristãos-novos. Havia, entre os portugueses encarniçados neste tão feio e inumano negócio, alguns que, pelo ódio e malquerença a Cristãos, para se vingarem deles, davam a entender aos estrangeiros que eram Cristãos-novos, e nas ruas ou em suas [próprias] casas os iam assaltar e os maltratavam, sem que se pudesse pôr cobro a semelhante desventura.
Na Terça-feira, estes danados homens prosseguiram em sua maldade, mas não tanto como nos dias anteriores; já não achavam quem matar, pois todos os Cristãos-novos, escapados desta fúria, foram postos a salvo por pessoas honradas e piedosas, [contudo] sem poderem evitar que perecessem mais de mil e novecentas criaturas.
Na tarde daquele dia, acudiram à cidade o Regedor Aires da Silva e o Governador Dom Álvaro de Castro, com a gente que puderam juntar, mas [tudo] já estava quase acabado. Deram a notícia a el-Rei, na vila de Avis, [o qual] logo enviou o Prior do Crato e Dom Diogo Lopo, Barão de Alvito, com poderes especiais para castigarem os culpados. Muitos deles foram presos e enforcados por justiça, principalmente os portugueses, porque os estrangeiros, com os roubos e despojo, acolheram-se às suas naus e seguiram nelas cada qual o seu destino. [Quanto] aos dois frades, que andaram com o Crucifixo pela cidade, tiraram-lhes as ordens e, por sentença, foram queimados.»

Damião de Góis, Crónica de D. Manuel I, capítulo CII da Parte I


Informação retirada da “Rua da Judiaria”: Damião de Góis (1502-1574), in “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”, escrito em Lisboa entre 1566 e 1567. Historiador e humanista, Guarda-Mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo, figura central do Renascimento em Portugal — ele próprio acusado mais tarde de “heresia” pela Inquisição por causa das suas simpatias luteranas e da amizade com Erasmo —, Damião de Góis relata com sentida e genuína indignação o massacre de 1506, ao contrário de outros cronistas “cristãos-velhos” que se limitaram posteriormente a fazer um relato desapaixonado e quase burocrático da matança, optando por “branquear” os detalhes mais macabros testemunhados nos escritos de Góis.

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#  Convém não esquecer...

... que foram precisos séculos para que nos deixássemos disto. E que por vezes a mão nos foge para o mesmo (o preconceito e o ódio ao Outro têm, também, o seu eterno retorno).

Lisboa: Progrom (massacre de judeus) de 1506
Lisboa: Progrom (massacre de cristãos-novos e/ou judeus) de 19–21 de Abril de 1506.

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07 março 2006

#  Isto do sentido de humor...

... é um sinal de inteligência e sofisticação, como se sabe. E Art Spiegelman deu uma forte prova disso mesmo na edição da New Yorker datada de 27 de Fevereiro.

Reflexo pavloviano aos cartoons sobre Maomé, um Irão a espumar de raiva lançou um concurso internacional de cartoons que promovam o anti-semitismo e a negação do Holocausto. Spiegelman, judeu americano, autor de Maus, a aclamada série de banda desenhada sobre o Holocausto nazi, deu a resposta que tal iniciativa merece: não a reciprocação da raiva, não a retaliação com cartoons anti-islâmicos, mas a risada sarcástica de quem diz: «Tentem de novo — não é assim que me conseguem melindrar!»

O que fez Spiegelman? Simplesmente apresentou três cartoons, três “contribuições” para o concurso iraniano. Ao repetir, também ele, os clichés anti-semitas (os traços fisionómicos, a roupa, a ligação à alta finança, etc.), Art Spiegelman privou-os da sua força, mostrou o ridículo da iniciativa. E, com muita auto-ironia, consegui ainda dar uma alfinetada no interdito sobre a representação do “sagrado”.

(c) Art SpiegelmanNa legenda: «Que isto te sirva de lição, Abie — é proibido representar graficamente o Lucro
(lucro = “profit”; profeta = “profet”)

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