foto: Bruno Espadana

10 setembro 2008

#  Dêem-me tradutores e revisores puristas — mas dêem-me tradutores e revisores, de facto!

Desidério Murcho escrevia ontem no Público (reproduzido no blogue De Rerum Natura):
Poucas pessoas sabem como se faz um livro, e por isso não sabem que o que um autor ou tradutor escreve é pacientemente revisto por pessoas especialistas nessa tarefa.
E depois continua para desancar os revisores «puristas» que censuram a língua e o estilo, como se a língua e o estilo fossem fósseis.

Pois, pois...

Em muitas edições portuguesas (particularmente traduções), eu até gostava de um correctorzinho purista — era sinal de que havia um corrector, in the first place!
O grande problema é que, frequentemente, não há; se há, só fingiu que fez o seu trabalho; e se fez o seu trabalho, então manifestamente não está qualificado para o fazer. (O mesmo se pode dizer, sem dúvida e por maioria de razão, dos próprios tradutores.)
Há de tudo: ignorância linguística, ignorância cultural (geral), ignorância sobre o tema...

As traduções dos livros de Georges Minois (Teorema) são apenas um exemplo dos mais flagrantes, mas tem muita companhia.
A tradução que Serafim Ferreira fez de História do Ateísmo é (permitam-me a ironia) de bradar aos céus: à força de desconhecer (!!!) a expressão francesa «ne que», o homem conseguiu pôr o texto em português a dizer o contrário do original francês (é tão evidente que até eu, sem o original à frente e sem grandes conhecimentos de francês, dou conta do problema — infelizmente, não sempre, certamente).
E a ignorância histórica (não só de personagens e autores importantes, mas também do facto de os nomes antigos e medievais, e ainda o dos modernos monarcas e papas, serem por tradição adaptados à língua de quem escreve) faz surgir preciosidades como «a Bíblia do Rei Jacques de Inglaterra»...

Por isso, dêem-me tradutores e revisores puristas — mas dêem-me tradutores e revisores, de facto!



Sobre este mesmo tema (e caindo um pouco na repetição), permito-me reproduzir aqui dois posts que escrevi ainda no tempo da revista Periférica (blogue A Oeste Nada de Novo):

HISTÓRIA DO ATEÍSMO (06/05/2004)

Foi finalmente publicado em Portugal o livro que, desde há pelo menos cinco anos, eu indicaria se algum dia me perguntassem a clássica «Que livro gostaria de ver traduzido em português?» (infelizmente, nunca ninguém quer saber essas coisas — ou muitas outras — de mim...).

Refiro-me a História do Ateísmo, de Georges Minois, setecentas e tal páginas a que tenho de me dedicar o mais rapidamente possível.

O aspecto menos positivo (a priori — espero enganar-me) foi a Teorema ter entregue a tradução a Serafim Ferreira, que recordo por ter traduzido outra obra do mesmo autor saída na Teorema: História do Futuro. Li o livro há não muitos meses (esteve anos na fila de espera) e surpreendeu-me pela negativa um tão pouco rigoroso trabalho de tradução...

POST SCRIPTUM SOBRE A TRADUÇÃO DE AS ORIGENS DO MAL DE GEORGES MINOIS (13/09/2005)

A tradução de As Origens do Mal foi entregue a Carlos Correia Monteiro de Oliveira, o que é uma boa notícia, pois o tradutor das obras precedentes (Serafim Ferreira) foi avançando paulatinamente até alcançar o nível do assassinato na tradução de História do Ateísmo, em que frequentemente pôs a edição portuguesa a dizer precisamente o contrário do original francês.

Se Carlos Oliveira comete os mesmos erros, tal não é evidente (o que, paradoxalmente, será um demérito face a Serafim Ferreira, com quem conseguíamos muitas vezes "reconstruir" o sentido original...), mas numa coisa ambos se irmanam: no critério (ou falta dele) quanto à tradução (ou não) de alguns títulos de obras e ao aportuguesamento (ou não) dos nomes de certos autores e personagens históricas ou mitológicas. É assim que surgem pérolas como a deusa grega «Gaïa», a seita dos «caïnitas» e o romancista «Dostoïevski», teólogos gregos como «Numérius d'Apamée», «Marcion du Pont» (ambos do séc. II) ou «Méthode d'Olympe» (séc. IV), o famoso escocês «Jean Duns Scot» (sécs. XIII–XIV) e muitos outros «Jeans» holandeses, alemães e doutras paragens, o «Livre des jubilés» (composto por uma seita judaica entre 135 a. C. e 105 a. C. e encontrado em Qumran) ou as obras de Ireneu (séc. II) e do alemão Martinho Lutero (séc. XVI), todas com títulos em francês — e ainda o meu preferido, o rei «Jacques I de Inglaterra». Ou, reverso da medalha, um certo «Teodoro» Roosevelt...*

Sejamos claros: deixar em francês títulos de obras não originalmente publicadas nessa língua ou nomes de personagens históricas não francófonas que por tradição são conhecidos na sua forma aportuguesada (ou afrancesada, no caso dos países francófonos, daí a opção de G. Minois) denota, antes de mais, ignorância e falta de cultura geral. O tradutor, simplesmente, não faz a mínima ideia de quem tais personagens foram — nem procurou saber.

* Alguns dos exemplos que dou são da autoria de Serafim Ferreira e não de Carlos Oliveira.

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31 maio 2008

#  Hortografia

Helena Araújo sobre o Acordo Ortográfico:
Também não concordo com simplificações da ortografia para facilitar a aprendizagem. Isso equivale a, desculpem a ofensa, fazer uma hortografia: ortografia para nabos.

Nota: Concordo no geral com a opinião de Helena Araújo sobre o Acordo Ortográfico. Pena que caia na ignorância (infelizmente tornada cliché) de falar em «mínimo denominador comum», que é coisa que não existe... (O termo correcto é «máximo denominador comum», mas como só é usado vox populi com intenção de denegrir, penso que a quem escreve parece melhor dizer «mínimo» e não «máximo», não vá o leitor pensar que é coisa positiva... Deve ter sido por aí que tudo começou; depois a ignorância tratou de consagrar a expressão.)

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23 março 2008

#  Reformas

Numa altura em que se fala da reforma ortográfica (vulgo, Acordo Ortográfico) que visa aproximar a grafia do português europeu à do português brasileiro (é assim mesmo, não vale a pena fantasiar um suposto “middle ground”), deparo-me com este excerto na página 155 de Empires of the Word: A Language History of the World (Nicholas Ostler, HarperCollins, 2005) sobre a milenar duração, virtualmente sem alterações, dos sistemas de escrita da China e do Antigo Egipto:
This resistance to script reform [in Ancient Egypt and China] really shows no more than that these cultures had already [...] achieved a stable incorporation of writing into their way of life. Asking for a replacement of the writing system in such a literate administration was no more practicable than the various attempts to introduce spelling reform into modern English.

Mas isso qualquer pessoa minimamente informada sabe: o inglês escrito é ortograficamente conservador, a sua grafia está significativamente desligada da fonética e as “normas” variam não só de país para país, mas mesmo entre grupos mais restritos (um exemplo paradigmático é a revista The New Yorker) — mas tais “barreiras” não impediram a afirmação da língua inglesa como língua franca a nível mundial e como língua de ciência e cultura, nem limitou a circulação global de livros e revistas escritos nas diferentes grafias.
(A ideia de que tais idiossincrasias são barreiras ao sucesso da língua, ou que derrubar tais moinhos de vento abrirá caminho a um futuro radioso — «amanhãs que cantam» português?... — é uma ilusão cara a alguns políticos respaldados por linguistas que buscam naqueles a autoridade política que compense a sua falta de influência na sociedade, e vice-versa.)

Mais interessante é a frase com que Nicholas Ostler continua:
It could only be feasible if the systems of education and administration were so severely disrupted that the succession was broken, and a new start could be made.
o que me faz pensar se a paulatina destruição (vulgo, as sucessivas «Reformas») do currículo do Ensino Básico e Secundário a que vimos assistindo nas últimas décadas não visa, afinal, garantir por antecipação o sucesso da entrada em vigor do dito Acordo Ortográfico...

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