foto: Bruno Espadana

08 novembro 2008

#  Uma verdade inconveniente

(Teoria Restrita da Relatividade da Reflexão)

Maugrado o secular prestígio da pausa reflexiva, o jovem Albert sabia algo que mais ninguém sabia: que ao pararmos para pensar, temos menos tempo para pensar.

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14 janeiro 2008

#  O Escritor (conto de microcontos)

(Nova versão, «revista e aumentada».)


1

Queria ser escritor.
Não tinha disciplina nem profundidade para o romance. Não tinha objectividade para a novela. Não tinha relevância para o conto. Não tinha poder de síntese para o microconto. Fora isso, não lhe faltava nada.
Nem sequer o Moleskine.


2

Queria ser escritor. Desse por onde desse, seria escritor.
Tentara o romance, tentara o conto — nunca acabara nada.
Tentara, em desespero de causa, o microconto — nenhuma ideia surgira.
Um dia, uma súbita inspiração: abriu o Moleskine e, de rajada, escreveu um ponto final.


3

A publicação de “.” apanhou a cena literária e o mercado livreiro de surpresa.
Em pouco tempo a sua obra inaugural arrebatava os tops de vendas. No final do ano a crítica foi unânime em elegê-lo como escritor-revelação. Era a nova coqueluche literária: não havia epígrafe em que não figurasse, não havia curso de escrita criativa que não o glosasse, nem dissertação de mestrado ou tese de doutoramento que não o citasse.
Era também terrivelmente plagiado. Mas aprendeu, estoicamente, a resignar-se.


4

À surpresa seguiu-se a certeza: contra todos os medos e maus agoiros, as obras seguintes confirmaram o fulgor e a frescura do Escritor. E não só como ficcionista, mas também nas vertentes de investigador e pensador crítico do nosso mundo: da sátira (“þ”) à Economia (“$”, “£”, “€”, “¥”...), passando pela Matemática (destaque para a diversas vezes reimpressa trilogia “>”, “<” e “=”), o seu contributo foi tudo menos irrelevante.
De facto, a sua primeira incursão pelo ensaio — “?” — tornou-se rapidamente leitura obrigatória nos mais prestigiados cursos de Filosofia (sucesso que se estenderia ao mundo hispano-falante depois da publicação de “¿?”, edição «revista e aumentada» cuja responsabilidade de tradução para o castelhano o Escritor chamou inteiramente a si). Anos depois, por pressão de alunos que se queixavam da exigência de tal obra de leitura integral, alguns cursos — à semelhança, de resto, do que já se passava em todas as faculdades de Teologia — adoptariam o menos inquisitivo e mais assertivo “.” (não confundir com a obra de ficção homónima, do mesmo autor). E, num exercício próximo da heteronímia, ou sinal de obsessão pelo contraditório, publicaria quase em simultâneo, sob nome suposto, “;”, uma refutação implacavelmente sardónica de “.” (referimo-nos ao ensaio, naturalmente).


5

Já num campo mais marginal, foi internacionalmente aclamado como «ground-breaking» o psicadélico “Ctrl+Alt”, também descrito como «o único digno sucessor de “The Doors of Perception”».
E, claro, como esquecer “æ” e “œ” («duas obras-primas da literatura erótica», chamaram-lhes), ou os muito mais polémicos “§” e “¶” (cuja temática homo-erótica ditou a sua remoção de muitos escaparates)?
Só não vingou na poesia. O manuscrito de “!” foi considerado «de um débil e inflacionado “sentimentalismo” poético» pelo único editor que contactou; o balde de água fria retirou-lhe o ânimo para novas tentativas.


6

Radicalmente anti-elitista, não desprezou os ditos “géneros menores”.
Foi com total desassombro que trouxe à luz do dia “—”, livro de auto-ajuda (subcategoria, autoconhecimento) que, à venda em todas as estações dos Correios, pôs meio país a falar com o seu Eu interior. (Pela mesma editora, o manual de yoga “&” foi apenas um sucesso relativo.)
Organizou também “«»”, uma bem sucedida recolha de citações famosas. A segunda edição revista (“«”) seria agraciada com o Prémio Escola Democrática da Associação para a Promoção de Novas Práticas Pedagógicas (APNPP) por «abrir a obra à participação activa e criativa do leitor-em-formação, contribuindo desta forma para uma Escola centrada no aluno»; no ano seguinte, a mesma APNPP atribuiria ainda uma Menção Honrosa, pelo mesmo «apelo à participação», à sua iniciativa — inédita e coroadíssima de sucesso — de organizar sessões de auto-autógrafos para/com a criançada.


7

Um dia atribuíram-lhe o Prémio Nobel. Polida mas irredutivelmente, recusou: as solicitações sociais de um laureado eram «too time-demanding».
E o que ele queria mesmo era escrever.

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13 janeiro 2008

#  Biografia (nanoconto)

Dizia: «A minha vida dava um livro do caralho!»
Em muitos capítulos, literalmente.

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17 dezembro 2007

#  Meta-arrogância (nanoconto)

«Sou arrogante, mas tenho razões para sê-lo.»

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#  Taxa de alcoolemia (nanoconto)

Era tão alcoólico que brindava batendo com os nós dos dedos nos copos dos outros.

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09 novembro 2007

#  Politicamente correcto (nanoconto)

Digamos que era vegetariano por interposta vaca.

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04 novembro 2007

#  Encore? (nanoconto)

Tão talentosos que eram, à segunda música já o público gritava «Só mais uma! Só mais uma!...»

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05 setembro 2007

#  O céu (microconto)

O motorista tinha acabado de sair com o seu autocarro da central de recolha quando, olhando o céu, pensou algo abstractamente que naquele dia ele estava excepcionalmente branco e uniforme, como uma folha de papel virgem. Sorriu ao lembrar-se dos seus desenhos da infância, em que o céu era uma estreita barra de azul remetida para a margem superior do papel, deixando uma vasta área da folha totalmente branca. Recordava-se também do fascínio com que, mais tarde, recebera o conceito de que ele (o céu) começava logo acima das nossas cabeças, dos telhados das casas ou das ervinhas do chão. (A partir desse dia iniciático, os desenhos demoraram mais tempo a acabar — e a mãe teve de lhe comprar lápis azuis extra.)

Mas daquela vez as coisas eram diferentes. De alguma forma, a criança que todos os dias pinta a paisagem em que nos movemos tinha-se fartado do desenho mais cedo do que o habitual, e nem a raquítica barrinha azul na borda do papel contrariava a brancura do firmamento. O motorista já tinha visto muitos dias com aquela nebulosidade a que chamava chapada, feita de uma camada uniforme de nuvens finas, amorfas e sem interesse, qual edredão comprado na loja dos trezentos, que tornam indeterminável a posição do sol e dão ao dia uma luminosidade incómoda — mas nunca se deparara com um branco tão imaculado. «Branco mais branco não há», pensou, um pouco triste por não ter ninguém com quem partilhar a piada que acabara de fazer.

Entretanto chegou à primeira paragem do seu percurso, onde entrou uma dezena de passageiros de caras ovinas. O cheiro acre do suor encardido penetrou nas narinas do motorista, trazendo-o para cotas mais terrenas.

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04 junho 2007

#  Subtileza fonética

A diferença entre o ñ e o n é que o ñ é mais subtil.

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29 maio 2007

#  O meta-recorde (nanoconto)

Aos vinte anos fez a primeira tentativa de inscrever o seu nome no Livro de Recordes do Guinness. Falhou.
Nos cinquenta anos seguintes tentaria uma e outra vez, incansavelmente, estabelecer o recorde a que se propusera. Rotundos fracassos, sempre.
Entrou para o Guinness.

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#  Esclarecimento

Obviamente, o post anterior (que é como quem diz, logo aqui abaixo) é um nanoconto; só não indico isso no título (como sempre faço), porque arruinaria a sequência de leitura. (Por razão conexa — a eufonia — é que este nanoconto não se chama, mais correctamente, «Iconoclasta e sovina,»; sacrifique-se o rigor à arte!)

Quanto ao post que se segue (ou seja, no andar de cima), é também — se bem que in extremis — um nanoconto (ora contem as frases!), ainda que os defensores da sua microcontalidade tenham alguma razão nos seus argumentos in contrario, mormente a extensão não despicienda da primeira e da terceira frases.
Já agora, esse nanoconto microconto nanoconto [começaram as disputas teóricas] tem um título alternativo: «O Paradoxo do Guinness».


Queria também alertar para outra disputa teórica [a ser também ela resolvida, Deo volente, no Congresso Internacional de Teoria da Literatura subordinado ao tema «Microconto vs. Nanoconto: uma questão menor?»]:
«O Escritor» é um conto em sete partes ou uma heptalogia microcontista?...
(Ah! Com esta dúvida já nem vão conseguir dormir!)

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#  Ateu e sovina,

organizava as festas de aniversário na igreja da paróquia para poder soprar as velas dos altares.

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#  A minha contribuição para a Teoria da Literatura

Decidi adoptar uma diferente (e mais rigorosa) classificação daquilo que até agora era apenas dividido em contos e microcontos.

Assim, a nova taxonomia (que terá efeitos retroactivos) é:

1. Nanoconto: Até 4-5 frases.

2. Microconto: Maior do que o nanoconto, mas claramente menos de uma página. (O sentido de «claramente» e o tamanho da «página» não são especificados, pois a Teoria da Literatura não é uma Ciência Exacta.)

3. Conto: Maior do que algo «claramente menor do que uma página» (ou pouco menos — talvez...).

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14 maio 2007

#  O Céu (microconto)

Avó e neta caminham de mão dada pela rua. É Primavera, os pássaros cantam.

Menos um: arredado para uma berma do passeio, meio comido pelas formigas, meio esmagado pela roda de uma bicicleta, jaz um pardal morto. A neta vê-o: de olhos semicerrados, o choro insinua-se num fungar quase inaudível.

— Não chores — sossega a avó —, foi para o Céu.

A neta ergue os olhos para a avó (para o céu?), funga uma derradeira vez, e cala-se.

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03 maio 2007

#  Coerência (nanoconto)

Tudo apontava para que viesse a ser um falhado.
E, efectivamente, foi-o.

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31 março 2007

#  Antecipação (nanoconto)

Era um seguidista. Mas ia à frente, para disfarçar.

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16 junho 2006

#  Nariz de vidente (nanoconto)

A segunda aparição confirmou a impressão da primeira: o Anjo usava In Excelsis Deo.

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14 junho 2006

#  Crescer (nanoconto)

Em toda a sua vida leu um só poema. De cada vez que o relia, em vez de mudar de página, mudava ele.

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27 maio 2006

#  T-zero (nanoconto)

O matemático pensou: «Duas a duas, as paredes paralelas encontram-se no infinito.»
— Fico com ele — disse. — Tem uma boa área.

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#  Era o orgulho dos pais (nanoconto)

Era uma moça prendada, que andava sempre na linha.
Um dia veio um comboio e colheu-a.

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