foto: Bruno Espadana

26 dezembro 2008

#  Could you rephrase, please?

No Público online:

Homem disfarçado de Pai Natal mata seis pessoas na Califórnia

Pelo menos seis pessoas morreram depois de um homem armado e vestido de Pai Natal ter entrado esta noite numa festa nos arredores de Los Angeles e ter atirado sobre os presentes.

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29 outubro 2008

#  Ignorância matemática

No Público online:

Quase todas as escolas do básico tiveram média positiva nas provas nacionais

Foram mais de mil as escolas que este ano tiveram uma média no exame nacional de Matemática do 9.º ano igual ou superior a 2,5 valores (numa escala de 1 a 5). Em 2007, tinham sido apenas duas centenas. Esta é uma das principais conclusões das notas de exame por escola ontem divulgadas pelo Ministério da Educação.

Quem faz (e quem noticia) médias de níveis 1 a 5 atribuídos no Ensino Básico mostra a sua ignorância matemática.

Os níveis (e não «valores», como erradamente os designam) 1 a 5 correspondem a uma escala qualitativa, não a uma escala quantitativa, pelo que não se pode com propriedade estabelecer uma média dessas classificações.
Note-se que a escala é de 1 a 5 — o que dá uma falsa ideia de quantitatividade —, mas poderia ser A, B, C... (como a escala de eficiência energética dos electrodomésticos), ou Vermelho, Laranja, Amarelo... (como os níveis de segurança ou a prioridade de atendimento hospitalar...). A opção por níveis numerados foi puramente arbitrária.

Há várias indicações de que a escala de 1 a 5 não é quantitativa, mas qualitativa:
  1. a ausência de um referencial absoluto (nível 0);
  2. a correspondência não-linear e arbitrária entre a classificação na escala 0-100% (esta sim, quantitativa) e os níveis de 1 a 5: tipicamente, 1 vai de 0 a 19%; 2, de 20 a 49%; 3, de 50 a 69% (ou a 74%); 4, de 70% (ou 75%) a 89%; e 5, de 90% a 100%;
  3. o facto de, por determinação ministerial, um nível 3 na avaliação de frequência (correspondente, digamos, a uma média de 50%) e um nível 2 no exame final (correspondente, p. ex., a uma classificação de 20% nesse exame) corresponder a um nível final de 3 (resultante do arredondamento da “média” de 2,7), independentemente das percentagens efectivamente obtidas (no exemplo dado, fazendo a média das percentagens obteríamos 41%, correspondente a um nível 2);
  4. uma turma com 10 alunos com testes de nível 4 e 10 alunos com testes de nível 2 não resulta necessariamente numa “média” de nível 3 de todos os testes da turma: por exemplo, se os níveis 4 corresponderem a uma média de 75% e os níveis 2 resultarem de uma média de 20%, a média da turma é 47,5%, o que corresponde a um nível 2.

Por isso, quando tratarem de classificações na escala (qualitativa) de níveis 1 a 5, não façam médias, que não são legítimas neste caso: façam medianas e outros percentis reveladores.

Ou, o que seria mais correcto (científica e pedagogicamente — ao arrepio do que defendem muitos “pedagogos”), abandonemos de todo a escala qualitativa de níveis 1 a 5 e fiquemo-nos pela muito mais natural, informativa e justa escala quantitativa de percentagens.
O único aspecto “negativo” dessa medida seria a impossibilidade de o Ministério da Educação decretar a “ginástica” criadora de (pseudo-)sucesso exemplificada no ponto 3 da lista anterior...

Ah, pois... Essa é uma enorme desvantagem política...


Nota: Este post tem um post-scriptum.

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30 setembro 2008

#  A métrica dos combustíveis fósseis (epílogo)

Reclamar ainda vale a pena: o infografista corrigiu o tamanho do círculo da energia hidroeléctrica. Agora, tudo bate certo.
Infografia: Energia das ondas em Portugal (versão corrigida)

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29 setembro 2008

#  A métrica dos combustíveis fósseis?

O Infografando, blogue convidado do Público, apresenta uma infografia sobre a central de aproveitamento eléctrico da energia das ondas a instalar ao largo da Póvoa de Varzim.

Infografia: Energia das ondas em Portugal
Só gostava de saber que métrica é que o infografista usou para determinar o tamanho relativo dos círculos de «Comparação dos maiores projectos por tipo de energia»...

A comparação deveria ser entre as áreas de cada círculo, mas não foi certamente o que se passou: 1200 MW é menos do dobro de 630 MW, mas a área do círculo daquele é 9,6 vezes maior do que a deste. Por outro lado, 630 MW é 7,5 vezes maior do que 84 MW, mas a relação entre as áreas dos respectivos círculos é inferior a 1,4...

A relação entre as potências instaladas também não se reflecte nos raios dos círculos (o que, ainda que errado, pelo menos teria uma lógica subjacente): para uma relação de 1,9 em potência temos 3,1 em raio do círculo, e para uma relação de 7,5 em potência temos uma relação inferior a 1,2 em raio...

Ora, como sabemos, muitos leitores não olharão para os números, mas para os tamanhos relativos dos círculos. (É exactamente esta constatação que dita a utilidade da infografia...) E o que é que os leitores infografo-dependentes concluirão (erradamente)? Que a central térmica é muitíssimo mais produtiva do que as restantes centrais, hidroeléctrica incluída — donde a energia térmica é e será sempre (ou pelo menos a médio prazo) insubstituível.

Tendo em conta que todas as energias apresentadas, com excepção da térmica, são renováveis, pergunto-me se a métrica utilizada na definição dos tamanhos relativos dos círculos terá sido a métrica do lobby dos combustíveis fósseis...


Nota: Este post teve epílogo...

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15 setembro 2008

#  A segurança do transporte aéreo

Sobre o acidente de um avião da Aeroflot ontem, leio nos comentários do Público online:
Na Europa, pelo menos, é muito mais seguro de andar de avião do que de automóvel... quem disser o contrário não sabe o que está a dizer... todos os anos morrem o número de pessoas nas estradas europeias equivalente a vários acidentes trágicos de avião por semana!!!!

Já ouvi diversas vezes dizer coisas do género, e não digo nem que sim, nem que não — mas gostava de saber se estas afirmações se baseiam em contabilidade de merceeiro, ou se algum estatístico (verdadeiro) se deu ao trabalho de analisar os números.

A segurança de um transporte mede-se pela probabilidade de ocorrerem acidentes e pela sua gravidade. Para isso, não basta saber quantos acidentes ocorrem num e noutro meio: é preciso saber também quantos carros circulam e quantos aviões voam por ano; a quantos passageiros isso corresponde; quantos quilómetros percorrem e quantas horas passam a circular/voar; quantas pessoas morrem, quantas ficam feridas e com que gravidade; em caso de acidente, que percentagem dos passageiros morre ou sofre uma lesão grave.

Só depois de tudo isto ponderado é que se pode dizer qual é o meio mais seguro.
Alguém fez estas contas?

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10 setembro 2008

#  Dêem-me tradutores e revisores puristas — mas dêem-me tradutores e revisores, de facto!

Desidério Murcho escrevia ontem no Público (reproduzido no blogue De Rerum Natura):
Poucas pessoas sabem como se faz um livro, e por isso não sabem que o que um autor ou tradutor escreve é pacientemente revisto por pessoas especialistas nessa tarefa.
E depois continua para desancar os revisores «puristas» que censuram a língua e o estilo, como se a língua e o estilo fossem fósseis.

Pois, pois...

Em muitas edições portuguesas (particularmente traduções), eu até gostava de um correctorzinho purista — era sinal de que havia um corrector, in the first place!
O grande problema é que, frequentemente, não há; se há, só fingiu que fez o seu trabalho; e se fez o seu trabalho, então manifestamente não está qualificado para o fazer. (O mesmo se pode dizer, sem dúvida e por maioria de razão, dos próprios tradutores.)
Há de tudo: ignorância linguística, ignorância cultural (geral), ignorância sobre o tema...

As traduções dos livros de Georges Minois (Teorema) são apenas um exemplo dos mais flagrantes, mas tem muita companhia.
A tradução que Serafim Ferreira fez de História do Ateísmo é (permitam-me a ironia) de bradar aos céus: à força de desconhecer (!!!) a expressão francesa «ne que», o homem conseguiu pôr o texto em português a dizer o contrário do original francês (é tão evidente que até eu, sem o original à frente e sem grandes conhecimentos de francês, dou conta do problema — infelizmente, não sempre, certamente).
E a ignorância histórica (não só de personagens e autores importantes, mas também do facto de os nomes antigos e medievais, e ainda o dos modernos monarcas e papas, serem por tradição adaptados à língua de quem escreve) faz surgir preciosidades como «a Bíblia do Rei Jacques de Inglaterra»...

Por isso, dêem-me tradutores e revisores puristas — mas dêem-me tradutores e revisores, de facto!



Sobre este mesmo tema (e caindo um pouco na repetição), permito-me reproduzir aqui dois posts que escrevi ainda no tempo da revista Periférica (blogue A Oeste Nada de Novo):

HISTÓRIA DO ATEÍSMO (06/05/2004)

Foi finalmente publicado em Portugal o livro que, desde há pelo menos cinco anos, eu indicaria se algum dia me perguntassem a clássica «Que livro gostaria de ver traduzido em português?» (infelizmente, nunca ninguém quer saber essas coisas — ou muitas outras — de mim...).

Refiro-me a História do Ateísmo, de Georges Minois, setecentas e tal páginas a que tenho de me dedicar o mais rapidamente possível.

O aspecto menos positivo (a priori — espero enganar-me) foi a Teorema ter entregue a tradução a Serafim Ferreira, que recordo por ter traduzido outra obra do mesmo autor saída na Teorema: História do Futuro. Li o livro há não muitos meses (esteve anos na fila de espera) e surpreendeu-me pela negativa um tão pouco rigoroso trabalho de tradução...

POST SCRIPTUM SOBRE A TRADUÇÃO DE AS ORIGENS DO MAL DE GEORGES MINOIS (13/09/2005)

A tradução de As Origens do Mal foi entregue a Carlos Correia Monteiro de Oliveira, o que é uma boa notícia, pois o tradutor das obras precedentes (Serafim Ferreira) foi avançando paulatinamente até alcançar o nível do assassinato na tradução de História do Ateísmo, em que frequentemente pôs a edição portuguesa a dizer precisamente o contrário do original francês.

Se Carlos Oliveira comete os mesmos erros, tal não é evidente (o que, paradoxalmente, será um demérito face a Serafim Ferreira, com quem conseguíamos muitas vezes "reconstruir" o sentido original...), mas numa coisa ambos se irmanam: no critério (ou falta dele) quanto à tradução (ou não) de alguns títulos de obras e ao aportuguesamento (ou não) dos nomes de certos autores e personagens históricas ou mitológicas. É assim que surgem pérolas como a deusa grega «Gaïa», a seita dos «caïnitas» e o romancista «Dostoïevski», teólogos gregos como «Numérius d'Apamée», «Marcion du Pont» (ambos do séc. II) ou «Méthode d'Olympe» (séc. IV), o famoso escocês «Jean Duns Scot» (sécs. XIII–XIV) e muitos outros «Jeans» holandeses, alemães e doutras paragens, o «Livre des jubilés» (composto por uma seita judaica entre 135 a. C. e 105 a. C. e encontrado em Qumran) ou as obras de Ireneu (séc. II) e do alemão Martinho Lutero (séc. XVI), todas com títulos em francês — e ainda o meu preferido, o rei «Jacques I de Inglaterra». Ou, reverso da medalha, um certo «Teodoro» Roosevelt...*

Sejamos claros: deixar em francês títulos de obras não originalmente publicadas nessa língua ou nomes de personagens históricas não francófonas que por tradição são conhecidos na sua forma aportuguesada (ou afrancesada, no caso dos países francófonos, daí a opção de G. Minois) denota, antes de mais, ignorância e falta de cultura geral. O tradutor, simplesmente, não faz a mínima ideia de quem tais personagens foram — nem procurou saber.

* Alguns dos exemplos que dou são da autoria de Serafim Ferreira e não de Carlos Oliveira.

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05 julho 2008

#  Heróis do M.E., nobre povo, / GAVE valente e imortal / Levantai hoje do novo / O esplendor de Portugal!

A edição de hoje do Público tem talvez a melhor primeira página de sempre:

2004:8,8; 2005:8,1; 2006:8,1; 2007:10,6; 2008: 14. Surpresa: os alunos já são bons a Matemática
Quem disse que só Luiz Felipe Scolari nos conseguiria conduzir à glória (o que não se confirmou), e que só Cristiano Ronaldo é um virtuoso, um verdadeiro artista?

Na sua área (a manipulação estatística), Maria de Lourdes Rodrigues, Valter Lemos y sus muchachos são artistas imensamente mais talentosos. Estivessem mortos, e seriam trasladados ao Panteão Nacional. Por mim, passava-se por cima desse detalhe e fechavam-se já lá...

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31 maio 2008

#  As Guerras da Auto-Estrada Transmontana

A adjudicação do prolongamento da A4 até Vila Real (primeira fase da chamada Auto-Estrada Transmontana) deu azo a longa discussão na caixa de comentários do Público online. Temos de tudo, desde moradores de Caparica que acham que uma auto-estrada em Trás-os-Montes é um desperdício porque «a maioria [dos transmontanos] nem carro tem» (sic!) a denunciadores de tudo quanto seja negócio chorudo, passando por toda a sorte de deserdados do mundo e instigadores de conflitos inter-regionais (Norte/Sul, Interior/Litoral, Lisboa/Paisagem, Celtas/Mouros…).

Uma das questões que muitos referem é a do retorno do investimento. Neste capítulo, há muita gente a fazer contabilidade de merceeiro. Segundo eles, a obra só se justificaria se num tempo útil o valor das portagens retornasse o dinheiro gasto na sua construção, o que obviamente não vai acontecer (citando um dos comentadores, «a 35 milhões por km, e a 10 cêntimos de portagem por km, terão que passar lá 350 milhões de utentes para a pagar…»).
Ora, esta ideia é um erro. Uma obra como esta justifica-se se, pela existência da auto-estrada, a economia da região sair reforçada (mais emprego, mais impostos, maior rendimento per capita…), se as populações se fixarem na região em vez de saírem do país ou irem para Lisboa aumentar os problemas sociais, o desequilíbrio populacional e o congestionamento no IC19 e na Ponte 25 de Abril... Se isto acontecer, não só a região sai beneficiada, mas todo o país sai beneficiado, pois um país com menos desequilíbrios regionais é um melhor país, mais rico, com mais qualidade de vida e onde, por isso, é bom viver.

Agora, uma questão bem diferente é saber se uma auto-estrada tem todos esses efeitos positivos numa região. Pessoalmente, acho que não. A esmagadora maioria dos supostos benefícios das “acessibilidades” são uma miragem: não são, certamente, condição sine qua non para o desenvolvimento (veja-se o caso da Irlanda), muito menos são uma sua condição suficiente (veja-se, infelizmente, o nosso caso como país...). Mas isto é verdade tanto para Trás-os-Montes como para o Porto, Lisboa ou a Caparica...

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27 maio 2008

#  Depois da Geração X... a Geração Y

(c) Beaudet / Jornal de Québec (Canadá)Cartoon de Beaudet / Journal de Québec (Canadá)

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26 março 2008

#  Estar à beira do precipício e dar um passo em frente

Eric Alterman, sobre a crise da imprensa escrita (The New Yorker, edição desta semana):
[...] In the Internet age [...] no one has figured out how to rescue the newspaper in the United States or abroad. Newspapers have created Web sites that benefit from the growth of online advertising, but the sums are not nearly enough to replace the loss in revenue from circulation and print ads.
Most managers in the industry have reacted to the collapse of their business model with a spiral of budget cuts, bureau closings, buyouts, layoffs, and reductions in page size and column inches. Since 1990, a quarter of all American newspaper jobs have disappeared. The columnist Molly Ivins complained, shortly before her death, that the newspaper companies’ solution to their problem was to make “our product smaller and less helpful and less interesting.” [...]

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30 outubro 2007

#  Coisas que valeu a pena ler hoje

O texto, de Helena Matos, é do Público de ontem, mas eu só o li hoje:

Os pobres são menos inteligentes do que os ricos?

«Em que escola estavas quando foi o 25 de Abril? Em que escola estão os teus filhos?» — À célebre pergunta «Onde é que estavas no 25 de Abril?» é imperioso que se juntem agora estas duas interrogações. Experimente-se por exemplo fazer estas perguntas aos ministros, deputados, autarcas, assessores, artistas, professores... e descobrir-se-á que a maior parte deles frequentou o ensino público mas optou pelo ensino privado na hora de inscrever os seus filhos e netos na escola. Não porque os seus filhos sejam mais ou menos inteligentes mas simplesmente porque têm medo que a falta de exigência os embruteça.
Duvido que algum destes hipotéticos inquiridos o assumisse claramente. Dariam como justificação os horários, os amigos, às vezes até os piolhos mas o que dificilmente diriam é que o fazem porque não acreditam na qualidade do ensino público. Muitos provavelmente serão oficialmente a favor do novo Estatuto do Aluno, tal como foram da afectação de tempos lectivos a ‘coisas’ como a Área de Projecto ou da desautorização dos professores e funcionários. Na prática isso não os afecta porque os seus filhos e os seus netos estão a salvo destes desmandos.
O falhanço do ensino público em Portugal tornou-se uma ratoeira contra os mais pobres: pobreza e o insucesso escolar tornaram-se sinónimos. E assim continuaremos para que ninguém preste contas por aquilo que começou por ser um erro e se está a transformar num crime.
Ao contrário do que se tornou quase banal dizer não foi a massificação do ensino público que comprometeu a sua qualidade. Os responsáveis por aquilo que os rankings cruamente espelham foram aqueles que fizeram da escola pública um espaço experiências sociológicas. Passamos a vida a discutir os programas mas um mau programa ainda é um programa. O pior foi baixar em cada ano lectivo o nível da exigência. Primeiro porque era mais moderno. Depois porque assim não se faziam distinções entre mais e menos inteligentes. Depois porque o objectivo da escola não era ensinar conteúdos mas sim ensinar a relacionar-se. Depois porque já não podia ser doutro modo.
Os filhos dos pobres não são nem mais nem menos inteligentes que os filhos dos ricos. Tiveram sim foi o azar dos seus pais não ganharem o suficiente para os poupar a esse papel de cobaias de teorias que tanto vêem na ignorância o estado supremo da perfeição igualitária como entendem que aprender tem de ser divertido e fácil. Nada disto afecta quem legisla porque os seus filhos não estão nas escolas públicas ou quando estão souberam contornar o crivo das moradas e horários de modo a frequentarem as turmas ditas dos filhos dos professores. Quem não pode fugir das más escolas é quem não tem dinheiro nem conhecimentos.
Alguns como Francisco Louçã querem agora diabolizar os rankings vislumbrando apoios da extrema-direita aos colégios que se encontram nos primeiros lugares. Engana-se redondamente. Quem fez a fortuna recente das escolas de maristas, jesuítas e da Opus Dei, dos colégios franceses, ingleses e modernos sem esquecer as escolas alemãs e americanas foram precisamente aqueles — às vezes de esquerda mas nem sempre — que resolveram que a escola pública não era o local onde todos tinham igual oportunidade de aprender, mas sim o espaço onde a irrelevância medíocre dos resultados provaria que todos podemos ser igualmente ignorantes e irresponsáveis.

Uma amiga minha que é professora do Ensino Secundário já por várias vezes verificou a existência de um cenário similar entre a classe média, mais concretamente entre os mesmíssimos professores seus colegas.
Na escola onde trabalham, defendem com paixão os princípios «modernos» (ou «pós-modernos»?) da «escola inclusiva» virada primordialmente para o desenvolvimento dos «afectos» (e não para a instrução), paraíso da «pedagogia não directiva» (entenda-se: em vez da sistematização do conhecimento, deixem-se os putos à deriva...) — mas na escola onde os filhos andam, defendem com unhas e dentes a aplicação do método tradicional, com muito trabalho, muita exigência e muito rigor: a única via para o sucesso que efectivamente reconhecem (porque a única que disso deu provas). E quando o azar dita que uma e outra escolas sejam a mesma (no interior escasseiam as boas escolas privadas — escasseiam as escolas, ponto final), então não hesitam em contratar um explicador, para que colmate com mais trabalho, mais exigência e mais rigor (mais sistematização do conhecimento) as lacunas que, na sala dos professores, negam existirem... A minha colega sabe-o bem, pois não raro é ela a explicadora que contratam para aplicar à prole os métodos que publicamente, entre os seus pares, proscrevem como antiquados.

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27 outubro 2007

#  Coisas que valeu a pena ler hoje

Opinião de Nuno Crato na Actual (Expresso):

O eduquês envergonhado

[...] Esperariam pais e professores que o novo documento resolvesse as incoerências entre o «Programa» [de Matemática do Ensino Básico] de 1991 e o «Currículo [Nacional do Ensino Básico — Competências Essenciais]» de 2001 e que traçasse objectivos claros, ano a ano, com rigor, objectividade e alguma exigência
Engano. O nosso Ministério da Educação tem dito que quer cortar com o passado. Transmite uma imagem de rigor e até de intransigência. Seria bom que cortasse também com o passado nas orientações pedagógicas que a experiência mostrou serem erróneas. A reformulação do programa é pouco clara nos objectivos e conteúdos, mas insiste na má orientação pedagógica da Matemática e em muitos dos erros das últimas décadas.
[...] O reconhecimento público quase generalizado de que as coisas não vão bem no ensino, em particular no da Matemática, não tem abrandado o dogmatismo daqueles teóricos da pedagogia que de há anos a esta parte negam a evidência dos resultados e se esforçam por propagar a «escola inclusiva», as «competências gerais», a «pedagogia não directiva» e o «ensino centrado no aluno». Mas tem obrigado a um maior comedimento nas palavras. Os dislates discursivos que ficaram conhecidos como «eduquês» abrandaram. O sestro não.

Nuno Crato fornece um exemplo bem denunciador deste cuidado no disfarce da retórica eduquesa: face à polémica em volta do conceito das «competências» (que para os apóstolos do eduquês são incompatíveis com coisas tão maléficas como os «conteúdos» programáticos, a «abstracção» e o «conhecimento» em geral...), a palavra está totalmente ausente do novo documento que o Ministério da Educação tem em preparação; o anátema foi ao ponto de, ao referi-lo, se truncar o nome do «Currículo» de 2001! Os retocadores de fotografias de Estaline não fariam melhor...

Infelizmente, é mesmo só de mudança retórica que se trata: na sua essência, o eduquês está lá todo. Por exemplo, ao mesmo tempo que despreza ferramentas matemáticas simples e de eficácia secularmente comprovada (como sejam os algoritmos da divisão e da multiplicação), o novo documento recomenda que os alunos — desprovidos das ferramentas básicas! — realizem «investigação matemática», pois obviamente serão capazes de, dotados apenas das capacidades inatas que a Natureza lhes deu, «fazer Matemática de modo autónomo», nomeadamente «formular e investigar conjecturas matemáticas».

Para quem não sabe (e os pedagogos românticos parecem não saber), em Matemática, «formular e investigar uma conjectura» não é “mandar uns bitaites”: uma conjectura matemática é algo de muito concreto — uma afirmação que parece provável que seja verdadeira (não é conhecido nenhum contra-exemplo, nem parece provável que exista), mas cuja veracidade não foi formalmente demonstrada segundo as regras da lógica matemática; assim que se prova formalmente que uma conjectura é verdadeira, ela é elevada ao estatuto de teorema, podendo ser usada daí em diante com segurança na construção de outras demonstrações matemáticas formais.
Algumas conjecturas demoraram séculos a serem provadas verdadeiras ou falsas; muitas esperam ainda uma prova formal; de algumas provou-se entretanto ser impossível decidir se são verdadeiras ou falsas...

E ainda há quem diga que o eduquês não almeja a excelência do ensino!


P.S. O artigo de Nuno Crato está integralmente reproduzido no Portugal dos Pequeninos.

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26 setembro 2007

#  Duplamente desconcertante

'War', de Paula RegoPaula Rego é dos poucos artistas cujas entrevistas verdadeiramente me interessam: o seu discuso não fica aquém da sua arte (mérito do discurso, não desmérito da arte). Nos outros, com sorte, interessa a arte — em Paula Rego até as palavras são desconcertantes!

O exemplo mais recente (de ontem) é o da reportagem de Alexandra Lucas Coelho na inauguração da retrospectiva de Paula Coelho no “Reina Sofía” de Madrid. Mas ainda recordo com humor a cara do comissário da exposição do CCB em 1997 (Alexandre Melo) a cada resposta da pintora...

De “The Pillowman” (peça que teve recentemente uma fenomenal encenação de Tiago Guedes), disse a pintora que transformou a sua vida (um elogio não despiciendo, vindo de alguém com a idade, o percurso e o universo temático de Paula Rego, referindo-se a um dramaturgo — Martin McDonagh — nascido em 1970). Nas palavras de Paula Rego: «Vi aquela peça e pensei: “Como é que há pessoas que sabem isto?”»

(Interessante: quando vi a peça no TNSJ pensei: «Como é que ele se lembra destas coisas?!» — mas Paula Rego viu melhor: McDonagh não inventa aquilo, ele sabe que aquilo existe!)

A pintora dedicou-lhe um tríptico:

'The Pillowman' (tríptico), de Paula Rego(Há mais informação sobre esta obra — e a peça que a motivou — na reportagem do Público e no site da Tate.)


Agustina Bessa-Luís, Paula Rego e Martin McDonagh: ora aí está uma mesa-redonda para nos deixar de olhos arregalados!

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12 julho 2007

#  It makes sense

Desvios de dinheiro na PJ também aconteceram na secção de roubo

(Título no Público online de hoje)

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12 fevereiro 2007

#  Menina-Guerreira?

Uma boa notícia nunca vem só.

Como se não fosse já suficientemente bom o Sim ter vencido o referendo ao aborto, sabe-se agora que a revista Xis, de que Laurinda Alves é directora, vai acabar no próximo fim-de-semana. Salve Arbores!

Santana Lopes descobriu a merecedora herdeira do cargo de Menino-Guerreiro (ou, neste caso, Menina).

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10 novembro 2006

#  Ler a ironia

Frontispício da edição original de 'Flatland'Há em muitas pessoas uma clara incapacidade de ler a ironia. Essa incapacidade é verificável mesmo naqueles que, pela sua profissão, deveriam estar habilitados a detectá-la. Veja-se o texto de Eduardo Prado Coelho (EPC) no Mil Folhas de hoje, em que fala da recente edição portuguesa de Flatland, romance de Edwin A. Abott em que as personagens são figuras geométricas:

[...] A isto deverá somar-se a questão das mulheres. Podemos dizer que aqui ressalta uma certa misoginia do autor. Em qualquer casa, por exemplo, deverá existir uma entrada só para os Homens e uma entrada posterior para as Mulheres. Mas também surge algo de subtil. As mulheres têm forma de agulha, são, por assim dizer, todas afiadas, pelo menos nas suas extremidades. Ora daqui decorre uma condição: podem tornar-se invisíveis. “Colocai uma agulha em cima de uma mesa, olhai-a de lado, de modo a que possais ver todo o seu comprimento; depois, olhai-a de frente e reparai como não vedes senão um único ponto: tornou-se praticamente invisível. Ora é isto mesmo que se passa com as nossas mulheres.” Este estatuto (algo em certa medida equivalente ao famoso aforismo lacaniano: “La femme ça n’existe pas”) torna-as manifestamente perigosas e por isso reprimidas pela ordem vigente masculina.

Não distinguirá EPC a misoginia da ironia? Não perceberá que a exposição de uma situação de facto (o estatuto de submissão da mulher na Época Vitoriana), mesmo que não expressamente contestada, não significa necessariamente uma apologia dessa situação? Não conceberá que por vezes a forma mais eficaz de crítica está no texto “meramente expositivo” e não no declaradamente argumentativo?

Talvez não. Talvez seja preciso fazer-lhe um desenho.



EPC não o diz, mas Flatland teve pelo menos uma edição nacional anterior: pela Gradiva, na colecção Ciência Aberta. Já agora, o livro inspirou um filme.

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08 novembro 2006

#  Cosmicómicas

José António SaraivaOntem à noite, no café com amigos, discutíamos os delírios mitómanos de José António Saraiva. Concretamente, deliciávamo-nos com «Em defesa do rigor», artigo publicado na última edição do semanário Sol, constando ao que parece de excertos do seu livro CONFISSÕES — os últimos anos no Expresso, o nascer do SOL e as conversas com políticos à mesa.

A leitura de Saraiva — como a sua vida, de facto — é fundamental para a compreensão do Portugal moderno. Pelo menos a julgar pelo que o próprio escreve. Aconteceu? Ele estava lá. Foi bom? Foi ele a sugeri-lo. Foi mau? Ele bem nos alertou, mas recusámo-nos a acreditar.

José António Saraiva é o Forrest Gump português: omnipresente e activo em todos os momentos-chave da História. Ou, dadas as evocações cósmicas do seu novo semanário, é uma versão infinitamente mais cómica de Qfwfq, a curiosa personagem que Italo Calvino, em Cosmicómicas, pôs a protagonizar todos os episódios relevantes da História do Universo, do Big Bang ao surgimento dos átomos, da formação das galáxias à evolução da vida na Terra.

Verdadeiramente, José António Saraiva é o Sol da nossa vida. E faz questão que nós o saibamos.

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24 outubro 2006

#  Jornalismo Babel Fish

A edição online do Público informa-nos do recente ranking internacional da liberdade de informação, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras. Ficamos a saber que a Dinamarca perdeu a liderança e que a Coreia do Norte, o Turquemenistão, a Eritreia e Cuba ficam no topo da lista quando esta está de pernas para o ar; orgulhamo-nos com o facto de os 25 países onde o jornalismo é mais livre serem todos europeus* (da União ou não), apesar de a recente divulgação de casos de censura na Polónia a empurrarem para o 58.º lugar; confirmamos que no Médio Oriente as coisas vão de mal a pior e que na Rússia os atropelos à liberdade estão de boa saúde, obrigado; que em África as coisas melhoram devagar aqui e ali, mas continuam negras (trocadilho não intencional), e que o paralelo 38 que separa as duas Coreias faz toda a diferença (137 lugares de diferença no ranking, para ser exacto).

No total, a notícia do Público refere 23 dos 168 países constantes do ranking. E Portugal? Não é dito. Podemos desconfiar da nossa presença entre os 25 europeus que lideram a lista, mas, não sendo claramente referido, fica a dúvida. Porquê esta ausência? A resposta vem logo na primeira frase do segundo parágrafo: «No primeiro lugar da lista de 2006 a que a AFP teve acesso [...]»

Compreendo que no press release da AFP não se fale em Portugal, um país pequeno e discreto nestas coisas internacionais. Mas jornalismo deve ser mais do que tradução dos press releases escritos algures numa agência noticiosa internacional. Os jornalistas do Público tinham a obrigação de complementar a informação fornecida pela AFP com dados quanto à posição de Portugal no ranking dos Repórteres Sem Fronteiras. Demora 5 segundos a descobrir o site dos Repórteres Sem Fronteiras e o resumo do relatório com a resposta à nossa dúvida: estamos em 10.º lugar, ex aequo com a Hungria, a Letónia e a Eslovénia. A nossa pontuação (que é tanto melhor quanto menor for o número) é 3,00; a dos quatro melhores (Finlândia, Irlanda, Islândia e Países Baixos) é 0,50; a da Coreia do Norte é 109,00.

Simples, não? É que não temos de nos limitar ao “jornalismo Babel Fish”.



* Esta informação está errada (erro da AFP, do Público — ou do Babel Fish?). Segundo os dados do relatório dos RSF, a Bolívia e o Canadá ocupam o 16.º lugar; a Nova Zelândia e Trinidad e Tobago estão em 19.º; e o Benim e a Jamaica em 23.º — sempre ex aequo com países europeus, é verdade.

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04 outubro 2006

#  Aos olhos do Expresso somos todos iguais

O Público voltou a disponibilizar gratuitamente o acesso online à sua edição impressa. Há, contudo, excepções: alguns conteúdos, nomeadamente os “artigos de fundo”, (ainda) não são de acesso livre.

Essa é a vantagem do novo Expresso: para não discriminar os leitores online, a edição em papel também não dá acesso a artigos de fundo.

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24 setembro 2006

#  Li e concordei (2)

De Miguel Sousa Tavares, no Expresso de ontem:
Inadvertidamente ou não, o Papa não disse nada sobre o Islão que nenhum ocidental não pense. Quando citou o Imperador bizantino Manuel II, dizendo “mostra-me aquilo que Maomé trouxe de novo e encontrarás só coisas mas e desumanas”, como “o direito de difundir a fé pela espada”, o Papa disse exactamente aquilo que todos nós pensamos hoje sobre o que significa fundamentalmente a corrente dominante no Islão: o direito a mandar, a aterrorizar e a matar em nome de Deus. [...]
[...]
Mas o que o Papa disse sobre o Islão, fingindo que não queria dizer, é exactamente o mesmo que se poderia dizer sobre qualquer outra religião, incluindo a católica. [...] E não foi a Igreja que mudou, mas a Revolução Francesa que ensinou os homens a mudar, contra a Igreja. Se olharmos para os dois mil anos de história depois do Novo Testamento [...], encontraremos as mesmas “coisas más e desumanas”, a mesma apologia de divulgar a fé através da espada. [...]

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