foto: Bruno Espadana

16 setembro 2008

#  Ainda as traduções em Portugal

Há dias queixei-me das más traduções e da falta de revisão na edição em Portugal. Hoje, deparo-me no site da Gradiva (uma das minhas editoras preferidas) com uma nota do Editor, infelizmente rara no nosso país:

2.ª edição com tradução integralmente revista

Apesar do cuidado empenhado na qualidade das nossas edições, os acidentes são, em certas circunstâncias, inevitáveis. Foi isso que se verificou com a 1.ª edição da obra fundamental O FUTURO DA LIBERDADE, de Fareed Zakaria. Pedindo desculpa aos nossos leitores por essa falha, a Gradiva receberá a devolução de todos os exemplares dessa primeira edição, enviando em troca a 2.ª edição com a tradução integralmente revista.

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10 setembro 2008

#  Dêem-me tradutores e revisores puristas — mas dêem-me tradutores e revisores, de facto!

Desidério Murcho escrevia ontem no Público (reproduzido no blogue De Rerum Natura):
Poucas pessoas sabem como se faz um livro, e por isso não sabem que o que um autor ou tradutor escreve é pacientemente revisto por pessoas especialistas nessa tarefa.
E depois continua para desancar os revisores «puristas» que censuram a língua e o estilo, como se a língua e o estilo fossem fósseis.

Pois, pois...

Em muitas edições portuguesas (particularmente traduções), eu até gostava de um correctorzinho purista — era sinal de que havia um corrector, in the first place!
O grande problema é que, frequentemente, não há; se há, só fingiu que fez o seu trabalho; e se fez o seu trabalho, então manifestamente não está qualificado para o fazer. (O mesmo se pode dizer, sem dúvida e por maioria de razão, dos próprios tradutores.)
Há de tudo: ignorância linguística, ignorância cultural (geral), ignorância sobre o tema...

As traduções dos livros de Georges Minois (Teorema) são apenas um exemplo dos mais flagrantes, mas tem muita companhia.
A tradução que Serafim Ferreira fez de História do Ateísmo é (permitam-me a ironia) de bradar aos céus: à força de desconhecer (!!!) a expressão francesa «ne que», o homem conseguiu pôr o texto em português a dizer o contrário do original francês (é tão evidente que até eu, sem o original à frente e sem grandes conhecimentos de francês, dou conta do problema — infelizmente, não sempre, certamente).
E a ignorância histórica (não só de personagens e autores importantes, mas também do facto de os nomes antigos e medievais, e ainda o dos modernos monarcas e papas, serem por tradição adaptados à língua de quem escreve) faz surgir preciosidades como «a Bíblia do Rei Jacques de Inglaterra»...

Por isso, dêem-me tradutores e revisores puristas — mas dêem-me tradutores e revisores, de facto!



Sobre este mesmo tema (e caindo um pouco na repetição), permito-me reproduzir aqui dois posts que escrevi ainda no tempo da revista Periférica (blogue A Oeste Nada de Novo):

HISTÓRIA DO ATEÍSMO (06/05/2004)

Foi finalmente publicado em Portugal o livro que, desde há pelo menos cinco anos, eu indicaria se algum dia me perguntassem a clássica «Que livro gostaria de ver traduzido em português?» (infelizmente, nunca ninguém quer saber essas coisas — ou muitas outras — de mim...).

Refiro-me a História do Ateísmo, de Georges Minois, setecentas e tal páginas a que tenho de me dedicar o mais rapidamente possível.

O aspecto menos positivo (a priori — espero enganar-me) foi a Teorema ter entregue a tradução a Serafim Ferreira, que recordo por ter traduzido outra obra do mesmo autor saída na Teorema: História do Futuro. Li o livro há não muitos meses (esteve anos na fila de espera) e surpreendeu-me pela negativa um tão pouco rigoroso trabalho de tradução...

POST SCRIPTUM SOBRE A TRADUÇÃO DE AS ORIGENS DO MAL DE GEORGES MINOIS (13/09/2005)

A tradução de As Origens do Mal foi entregue a Carlos Correia Monteiro de Oliveira, o que é uma boa notícia, pois o tradutor das obras precedentes (Serafim Ferreira) foi avançando paulatinamente até alcançar o nível do assassinato na tradução de História do Ateísmo, em que frequentemente pôs a edição portuguesa a dizer precisamente o contrário do original francês.

Se Carlos Oliveira comete os mesmos erros, tal não é evidente (o que, paradoxalmente, será um demérito face a Serafim Ferreira, com quem conseguíamos muitas vezes "reconstruir" o sentido original...), mas numa coisa ambos se irmanam: no critério (ou falta dele) quanto à tradução (ou não) de alguns títulos de obras e ao aportuguesamento (ou não) dos nomes de certos autores e personagens históricas ou mitológicas. É assim que surgem pérolas como a deusa grega «Gaïa», a seita dos «caïnitas» e o romancista «Dostoïevski», teólogos gregos como «Numérius d'Apamée», «Marcion du Pont» (ambos do séc. II) ou «Méthode d'Olympe» (séc. IV), o famoso escocês «Jean Duns Scot» (sécs. XIII–XIV) e muitos outros «Jeans» holandeses, alemães e doutras paragens, o «Livre des jubilés» (composto por uma seita judaica entre 135 a. C. e 105 a. C. e encontrado em Qumran) ou as obras de Ireneu (séc. II) e do alemão Martinho Lutero (séc. XVI), todas com títulos em francês — e ainda o meu preferido, o rei «Jacques I de Inglaterra». Ou, reverso da medalha, um certo «Teodoro» Roosevelt...*

Sejamos claros: deixar em francês títulos de obras não originalmente publicadas nessa língua ou nomes de personagens históricas não francófonas que por tradição são conhecidos na sua forma aportuguesada (ou afrancesada, no caso dos países francófonos, daí a opção de G. Minois) denota, antes de mais, ignorância e falta de cultura geral. O tradutor, simplesmente, não faz a mínima ideia de quem tais personagens foram — nem procurou saber.

* Alguns dos exemplos que dou são da autoria de Serafim Ferreira e não de Carlos Oliveira.

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04 junho 2008

#  Não me lembra nada nem ninguém (9)

«Do ponto de vista demagógico, a melhor maneira de evitar a discussão é tornar o argumento impossível de verificação no presente e afirmar que o futuro lhe revelará os méritos
(adaptado de Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, p. 458)

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21 abril 2008

#  Não me lembra nada nem ninguém (8)

A great power sets its sights on a smaller, strange, and faraway land—an easy target, or so it would seem. Led first by a father and then, a decade later, by his son, this great power invades the lesser country twice. The father, so people say, is a bland and bureaucratic man, far more temperate than the son; and, indeed, it is the second invasion that will seize the imagination of history for many years to come. For although it is far larger and more aggressive than the first, it leads to unexpected disaster. Many commentators ascribe this disaster to the flawed decisions of the son: a man whose bluster competes with, or perhaps covers for, a certain hollowness at the center; a leader who is at once hobbled by personal demons (among which, it seems, is an Oedipal conflict) and given to grandiose gestures, who at best seems incapable of comprehending, and at worst is simply incurious about, how different or foreign his enemy really is. Although he himself is unscathed by the disaster he has wreaked, the fortunes and the reputation of the country he rules are seriously damaged. A great power has stumbled badly, against all expectations.
(Daniel Mendelsohn, no último número da New Yorker, sobre as Histórias de Heródoto, que narram a guerra dos Gregos contra os Persas em 490 e 480–479 a.C.)

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07 abril 2008

#  Ler dá trabalho

Alice Vieira em Os meus livros n.º 62:
[...] nessa coisa de não maçar os meninos, dizemos que ler não dá trabalho. É mentira: ler dá trabalho, mas é bom.

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23 março 2008

#  Reformas

Numa altura em que se fala da reforma ortográfica (vulgo, Acordo Ortográfico) que visa aproximar a grafia do português europeu à do português brasileiro (é assim mesmo, não vale a pena fantasiar um suposto “middle ground”), deparo-me com este excerto na página 155 de Empires of the Word: A Language History of the World (Nicholas Ostler, HarperCollins, 2005) sobre a milenar duração, virtualmente sem alterações, dos sistemas de escrita da China e do Antigo Egipto:
This resistance to script reform [in Ancient Egypt and China] really shows no more than that these cultures had already [...] achieved a stable incorporation of writing into their way of life. Asking for a replacement of the writing system in such a literate administration was no more practicable than the various attempts to introduce spelling reform into modern English.

Mas isso qualquer pessoa minimamente informada sabe: o inglês escrito é ortograficamente conservador, a sua grafia está significativamente desligada da fonética e as “normas” variam não só de país para país, mas mesmo entre grupos mais restritos (um exemplo paradigmático é a revista The New Yorker) — mas tais “barreiras” não impediram a afirmação da língua inglesa como língua franca a nível mundial e como língua de ciência e cultura, nem limitou a circulação global de livros e revistas escritos nas diferentes grafias.
(A ideia de que tais idiossincrasias são barreiras ao sucesso da língua, ou que derrubar tais moinhos de vento abrirá caminho a um futuro radioso — «amanhãs que cantam» português?... — é uma ilusão cara a alguns políticos respaldados por linguistas que buscam naqueles a autoridade política que compense a sua falta de influência na sociedade, e vice-versa.)

Mais interessante é a frase com que Nicholas Ostler continua:
It could only be feasible if the systems of education and administration were so severely disrupted that the succession was broken, and a new start could be made.
o que me faz pensar se a paulatina destruição (vulgo, as sucessivas «Reformas») do currículo do Ensino Básico e Secundário a que vimos assistindo nas últimas décadas não visa, afinal, garantir por antecipação o sucesso da entrada em vigor do dito Acordo Ortográfico...

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23 novembro 2007

#  Ler, sublinhar, citar

Capa de 'A Lógica dos Burros: O lado negro das políticas educativas', de Gabriel Mithá RibeiroQuando leio algo, gosto de sublinhar as partes importantes. Quando tal se torna relevante, também gosto de citar aqui alguns excertos.

Por estes dias tenho lido A Lógica dos Burros, de Gabriel Mithá Ribeiro, um livro que se revela um problema relativamente ao mote de «ler, sublinhar, citar». A «nota prévia do autor» é bem sintomática: em 24 páginas fundamentais, Gabriel Mithá Ribeiro expõe 11 «domínios problemáticos essenciais do ensino básico e secundário»; o resultado são páginas e páginas profusamente sublinhadas (perdendo-se o desejado efeito de destaque) — e citá-lo em tal extensão, para além de exigir demasiado tempo, começaria a entrar no domínio do infringimento dos direitos de autor e de cópia...

(Apesar disso, nos próximos dias tentarei citar aqui o fundamental do fundamental — procurando o difícil ponto de equilíbrio em que a concisão não impede a contextualização.)

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01 novembro 2007

#  Manuel de Freitas uma oitava acima...

Capa de 'Jukebox', de Manuel de FreitasCapa de 'Que Comboio É Este', de A. M. Pires CabralCapa de 'Falésias', de Jorge Gomes MirandaCapa de 'Capitais da Solidão', de Rui Pires CabralCapa de 'Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta', de Carlos BessaCapa de 'Diques', Rui Pedro GonçalvesCapa de 'Que Comboio É Este' (2.ª edição), de A. M. Pires CabralCapa de 'Terra sem Coroa', de Manuel de Freitas

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16 outubro 2007

#  Educação: leituras para uma reflexão

Capa de 'A Lógica dos Burros: O lado negro das políticas educativas', de Gabriel Mithá RibeiroAcaba de sair com a estampa da Europa-América o livro A Lógica dos Burros: O lado negro das políticas educativas, colectânea de textos que Gabriel Mithá Ribeiro vem publicando nos anos mais recentes na imprensa portuguesa (Público, Jornal de Letras, Pontos nos ii, Atlântico, O Independente) e blogues (Abrupto), e incluindo também alguns inéditos.

Para quem não sabe, Gabriel Mithá Ribeiro é o autor de A Pedagogia da Avestruz (Gradiva, 2003), outro livro sobre o estado da Educação em Portugal e um testemunho pessoal de um professor apanhado nas malhas do “pedagoguês”.


Capa de 'Eduquês: Um Flagelo Sem fronteiras - O caso Lafforgue'Um pouco antes saiu (mas só agora comprei) Eduquês: Um Flagelo Sem fronteiras — O caso Lafforgue. Trata-se de um livrinho organizado e traduzido por Filipe Oliveira e editado pela Gradiva em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Matemática, reunindo o e-mail que Lafforgue enviou ao Presidente do francês Alto Conselho para a Educação (e cuja divulgação desencadeou o escândalo referido no subtítulo — Jorge Buescu dedicou-lhe um capítulo no seu último livro) e um texto mais longo, escrito por Lafforgue em co-autoria com mais seis matemáticos e físicos franceses, sobre «Os conhecimentos fundamentais ao serviço do futuro científico e técnico [e] como os reensinar».

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19 julho 2007

#  Curiosos e diletantes

Voltando a Histórias da Luz e das Cores, lá encontro alguns exemplos de livros de divulgação científica dos séculos XVIII e XIX. Não resisto a reproduzir os deliciosos frontispícios de dois deles (um da década de 1750, o outro de 1787), ambos de autores portugueses:


RECREASAÕ
FILOZOFICA,
OU
DIÁLOGO
Sobre a Filozofia Natural para instruc-
saõ de pesoa curiozas , que naõ
frequentáraõ as aulas.

PELO
P. TEODORO D’ALMEIDA
da Congregasaõ do Oratorio de S. Fi-
lipe Neri.

Terceira impresaõ acrescentada , e emendada em
muitos lugares por seu Autor.






TRATADO
DAS
CORES

QUE CONSTA DE TRES PARTES
ANALYTICA, SYNTHETICA,
HERMENEUTICA:


OFFERECIDO

Aos Amadores das Sciencias Naturaes, e a os
Dilectantes, e Artistas, que começaõ
a occupar-se em todo o genero
de Trabalho Colorido


POR

DIOGO DE CARVALHO E SAMPAYO,
CAVALEIRO DA ORDEM DE MALTA.

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21 setembro 2006

#  Nota à margem

Samir Kassir foi historiador e jornalista, professor no Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Saint-Joseph. Era reputado pelos seus editoriais publicados no grande jornal diário de Beirute, An-Nahar. A sua Histoire de Beyrouth (2003) foi saudada como uma obra de referência. Foi assassinado em 2 de Junho de 2005, em Beirute. Tinha então 45 anos.

Capa de 'Considerações sobre a desgraça árabe'Transcrevo este parágrafo da primeira página de Considerações sobre a desgraça árabe (Actes Sud, 2004; Cotovia, 2005), um opúsculo em cujo preâmbulo Samir Kassir se autodefine da seguinte forma:
O autor destas considerações é um árabe do Machereque, laico, como depressa se verá, aculturado e mesmo ocidentalizado — se assim não fosse, porque escreveria em francês? —, mas que não se considera alienado a uma cultura estrangeira, e, em todo o caso, pouco desejoso de erradicar aqueles que não pensam como ele. [...]

Na margem do texto anoto: «Não era recíproco...»

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01 agosto 2006

#  Portugal: o Sr. P. à luz da neuropsicologia

Capa de 'O Homem-Termómetro', de Laurent CohenEstou nas páginas finais de um livro apaixonante sobre neuropsicologia: O Homem-Termómetro: O cérebro em peças soltas, de Laurent Cohen (Gradiva, 2006). Na página 162, em que o autor descreve os sintomas de um certo Sr. T., não pude deixar de pensar que o mesmo diagnóstico se poderia aplicar ao Sr. P., um país que vai por aí com o nome de Portugal...
[...] O Sr. T. sofre de uma doença bastante rara [«síndrome frontal»], que consiste numa degenerescência dos neurónios da região pré-frontal. Trata-se de uma doença cuja progressão é lenta, mas irreversível, infelizmente sem tratamento eficaz até hoje. [...] trata-se da perda de qualquer iniciativa autónoma. Em resumo, poderíamos dizer que por sua própria iniciativa o Sr. T. já nada faz, embora seja potencialmente capaz de acções e de um discurso normal. De facto, é o córtex pré-frontal que toma normalmente a iniciativa das novas actividades, planificadas com a finalidade de chegar a um fim significativo. Ora o Sr. T. já não tem qualquer objectivo próprio. Age apenas em resposta a circunstâncias exteriores que desencadeiam nele comportamentos rotineiros.

Mais à frente (p. 164) temos até explicação para, por um lado, a nossa predilecção por modelos “chave-na-mão” (o modelo francês, o modelo anglo-saxónico, o modelo irlandês, o modelo nórdico, o modelo finlandês...), que desejamos aplicar acriticamente ao nosso caso, e, por outro, para a nossa crónica permanência no passado, a nossa incapacidade de seguir em frente:
Tal como as duas faces de uma mesma moeda, por um lado o comportamento do Sr. T. já não é devidamente guiado pelas suas iniciativas autónomas (não faz nada de sua própria iniciativa) e por outro lado está demasiado dependente das solicitações exteriores (imita e utiliza). Mas, pelas mesmas razões, está também demasiado dependente do seu passado. A inércia cognitiva torna difícil a passagem de uma actividade à outra e impede as actividades espontâneas. O cúmulo da sujeição à rotina é a repetição incessante da mesma acção.

O Sr. P. — Portugal — não consegue, como Mark Twain disse das pessoas inteligentes, «cometer sempre novos erros». Ou, como disse outro autor (de momento não recordo quem): «Errar, errar de novo, errar melhor».

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30 junho 2006

#  Free World

Capa de 'Free World'Acabei de ler Free World — A América, a Europa e o futuro do Ocidente (ed. Alêtheia), de Timothy Garton Ash. Segundo a contracapa, Václav Havel descreveu-o como «Um apaixonante manifesto a favor do alargamento da liberdade e de uma nova era na política mundial».

Free World é muito mais do que isso. É simultaneamente informativo e opinativo. É equilibrado. É daqueles livros em que certas páginas têm tanto que merece ser sublinhado e destacado que, quando vamos a ver, não conseguimos destacar nada (o que chega a ser irritante).

Verdadeiramente, Free World é um livro a não perder.

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#  Le beurre et l’argent du beurre

Segundo um estudo referido em Free World (Transatlantic Trends, 2003), dos «71% [de europeus] que responderam que queriam que a União Europeia se tornasse uma superpotência, 49% mudavam de opinião se isso implicasse um aumento nas despesas militares». O melhor dos dois mundos. O poder indolor. Ouro sobre azul.

A Europa pode ser o continente mais laico, mas continua-se a acreditar em milagres.

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#  Reconhecermo-nos

Já o disse diversas vezes, sempre que comparei as minhas expectativas com a entrega àquilo em que acredito: «Sou pessimista, mas ajo como se fosse optimista.»

Ontem, enquanto lia as últimas páginas de Free World, reconheci-me:
Existe uma sábia divisa para todos aqueles que se batem por um mundo livre: «pessimismo do intelecto, optimismo da vontade»*. [...] Esperamos o pior, mas trabalhamos para o melhor.

* Em nota, Timothy Garton Ash acrescenta: «Este lema é muitas vezes atribuído ao marxista italiano Antonio Gramsci, que o empregava no cabeçalho do seu jornal Ordine Nuovo. De facto, Gramsci popularizava as palavras que tinham sido originalmente cunhadas pelo autor pacifista francês Romain Rolland

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29 maio 2006

#  Renasce a esperança quanto ao bolo da Jamaica!

bolo da JamaicaSim, é verdade! Com ou sem Dan Brown, tenho à-mão-de-semear as originais receitas dos bolos da Jamaica!

Apropriadamente chamados “Jamaican Surprise Cake” (para os neófitos) e “Jamaican Mystery Cake” (para os já iniciados no oculto culinário), consta que demoram tanto tempo a ser devorados como O Código Da Vinci.
A versão cinematográfica está já a ser preparada, com Maria de Lourdes Modesto confirmada no papel protagonista (já lhe chamam «o Tom Hanks da colher-de-pau»); Manuel Luís Goucha está a ser abordado para fazer o papel que no filme de Ron Howard calhou a Audrey Tautou.

Agradeço ao autor d’A Mensagem Brown esta preciosa dica. Pelo seu post não se percebe é se chegou ao site das receitas através do anunciado “Código Brown” ou, mais pragmaticamente, pesquisando no Google...

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24 maio 2006

#  «O discurso pedagógico no ensino das ciências»

Acabo de receber por e-mail a divulgação do seguinte evento:

O discurso pedagógico no ensino das ciências

26 de Maio, 19:00 horas
Com Ana Maria Morais
Professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

A teoria do discurso pedagógico de Bernstein perspectiva a aprendizagem escolar como algo que pode favorecer a aquisição de conhecimentos e competências por todas as crianças, independentemente do seu estatuto sócio-económico. No ensino das ciências, em particular, investigações recentes mostram que o discurso adoptado pelo professor pode contribuir para o sucesso das aprendizagens. Esta sessão, através da apresentação do livro Reading Bernstein, Researching Bernstein, procura responder às seguintes questões: Quais as características sociológicas das práticas pedagógicas de sucesso no ensino da ciência no 1º ciclo? Qual a relação entre estatuto sócio-económico, prática pedagógica e conhecimento científico?

LIVRARIA ALMEDINA - ATRIUM SALDANHA
Loja 71 - 2º Piso
Lisboa

Infelizmente, 400 km de permeio impedem-me de comparecer. Mas agradeço a quem quer que, lá indo, me possa informar do que foi dito.

Não conheço este Bernstein nem o que defende a sua teoria, mas uma coisa deixa-me alguma esperança: se o que entendo do texto é correcto, Bernstein parte da observação de práticas pedagógicas de sucesso comprovado (as chamadas “boas práticas”) para a elencação das “regras” que lhes subjazem. Algo muito diferente dos lirismos pseudopedagógicos que ensopam as recomendações do Ministério da Educação e as obras de muitos “pedagogos”, que partem, não de dados observacionais, mas exclusivamente de princípios ideológicos (de natureza sociopolítica), postulando-os como Santo Graal dos problemas da Educação.

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18 maio 2006

#  Eu queria era saber mais sobre o bolo da Jamaica...

bolo da JamaicaFrederico Duarte Carvalho (FDC), um jornalista cujo rigor e seriedade poderão talvez ser avaliados pelo seu currículo (Tal & Qual, 24Horas) publicou um livro (A Mensagem Brown — O Código Dentro do Código Da Vinci) no qual defende a tese de que há uma mensagem sobre Portugal escondida no best-seller de Dan Brown (seja por vontade deste ou por «intervenção divina»). O livro de FDC faz o pleno místico-oportunista (saiba o turismo português aproveitar...): numerologia, Templários, Ordem de Cristo, Quinta da Regaleira, Grão Vasco, Fernando Pessoa, Quinto Império...

Mais para o fim da reportagem, diz Alexandra Prado Coelho:
Frederico reconhece que é possível encontrar códigos em todo o lado. “Qualquer capítulo [d’O Código Da Vinci] dá para tudo, até para descobrir a receita de um bolo da Jamaica.”

E, quando eu começava a ficar verdadeiramente interessado, a reportagem acaba. Isso não se faz, Alexandra!

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#  Factos

Acho piada a quem acusa o livro de Dan Brown de «enganar os leitores» por começar com a afirmação:
Facto: [...] Todas as descrições de obras de arte, edifícios, documentos e rituais secretos que aparecem neste romance são exactas.

Serão essas pessoas uns leitores tão básicos, ao ponto de não perceberem que uma obra de ficção é-o do princípio ao fim, estando por isso “habilitada” a classificar como “factos” aquilo que bem lhe aprouver?

Veja-se o caso dos filmes de terror, em que a certa altura uma personagem poderá dizer: «Eu queria que isto fosse um pesadelo, mas afinal é real!» (É?)
Veja-se o caso de Saramago, que em epígrafe começou por citar autores reais e livros que existem (Estrabão, Fernão Lopes, Diderot, Evangelho de Lucas...), para a partir de certa altura passar a citar livros que só existem na sua biblioteca imaginária (Livro dos Conselhos, Livro das Evidências, Livro dos Contrários).

Obviamente, o leitor é livre (ou passível) de aceitar como factual algo que, em essência, é ficcional. Mas isso acontece desde sempre: veja-se o Bhagavad Ghita, veja-se o Livro de Mórmon, veja(m)-se a(s) Bíblia(s), veja-se o Corão... Em termos de credulidade — e citando um dos anteriores —, nihil nove sub sole.

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13 maio 2006

#  Leituras a metro

Um percurso literário pelo Metro de Lisboa


Guia Prático do Utilizador
Logotipo (alternativo) do Metro de LisboaEm muitos Metros lê-se por todo o lado (no de Lisboa nem por isso). O de Madrid tem mesmo tradição de campanhas de promoção da leitura (a Administração do Metro de Lisboa desconhece o conceito). Resolvido a colmatar tal lacuna, sugiro aqui um roteiro literário/guia de leitura para toda a extensão da rede, incluindo obras em curso. As escolhas* foram ditadas pela existência de alguma relação — por vezes estranha — entre as linhas e estações (ou zonas envolventes) e os livros em causa. À parte, também a versão light (pluralismo oblige).

* Por vezes mais de uma por estação (ver lista).

Um percurso literário pelo Metro de Lisboa
(Clique no mapa para ampliar)

Alameda: O homem que quis ser rei (Rudyard Kipling)
Alfornelos: Toda a Terra (Ruy Belo)
Alto dos Moinhos: Dom Quixote de La Mancha (Miguel de Cervantes)
Alvalade: Muros (Júlio Machado Vaz); Os sete loucos (Roberto Arlt); Insânia (Hélia Correia)
Amadora Este: A Leste do Paraíso (John Steinbeck)
Ameixoeira: Oranges Are Not the Only Fruit (Jeanette Winterson)
Anjos: O Anjo Ancorado (José Cardoso Pires)
Areeiro: A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (Mário de Carvalho)
Arroios: As Inumeráveis Águas (Nuno Júdice)
Avenida: Avenida Névski (Nikolai Gógol)
Baixa-Chiado: A Cruz de Santo André (Camilo José Cela) & O Livro do Desassossego (Bernardo Soares)
Bela Vista: Uma mancha na paisagem (Tom Sharpe)
Cabo Ruivo: Passagem do Cabo (Maria Ondina Braga)
Cais do Sodré: Três homens num barco (Jerome K. Jerome)
Campo Grande: A Casa Verde (Mario Vargas Llosa)
Campo Pequeno: Rol de Cornudos (Camilo José Cela); Fiesta (Ernest Hemingway)
Carnide: Enciclopédia dos Mortos (Danilo Kiš)
Chelas: A Colmeia (Camilo José Cela)
Cidade Universitária: O Livro do Riso e do Esquecimento (Milan Kundera)
Colégio Militar/Luz: Pantaleão e as Visitadoras & Conversa na Catedral (Mario Vargas Llosa)
Entre Campos: A Feira dos Assombrados (José Eduardo Agualusa)
Intendente: Memória das minhas putas tristes (Gabriel García Márquez)
Jardim Zoológico: Bichos (Miguel Torga); O triunfo dos porcos (George Orwell); Más de cien bestias atrapadas en un punto (Salvador Gutiérrez Solís)
Laranjeiras: A Laranja Mecânica (Anthony Burgess)
Lumiar: Céu em Fogo (Mário de Sá-Carneiro)
Marquês do Pombal: Sebastião José (Agustina Bessa-Luís)
Martim Moniz: História do Cerco de Lisboa (José Saramago)
Odivelas: Contos do Extremo Norte (Jack London)
Olaias: A Guerra das Laranjas (António Ventura)
Olivais: África Minha (Karen Blixen)
Oriente: Contos Orientais (Marguerite Yourcenar)
Parque: Eu que Servi o Rei de Inglaterra (Bohumil Hrabal)
Picoas: Os Filhos da Droga (Christiane F.)
Pontinha: Pisar o Risco (Salman Rushdie); Lulu on the Bridge (Paul Auster)
Praça de Espanha: O Senhor Embaixador (Erico Veríssimo); The Catcher in the Rye (J. D. Salinger); Praças e Quintais (Rui Pires Cabral)
Quinta das Conchas: O Búzio de Cós e outros poemas (Sophia de Mello Breyner Andresen); O Estrangeiro (Albert Camus)
Rato: Of Mice and Men (John Steinbeck)
Restauradores: Os Dragões do Éden (Carl Sagan); Comboios Rigorosamente Vigiados (Bohumil Hrabal)
Roma: A Cidade Queimada (Mário Cesariny)
Rossio: O Visconde Cortado ao Meio (Italo Calvino)
Saldanha: O Sr. Ministro (Camilo Castelo Branco)
Santa Apolónia: Trainspotting (Irvine Welsh); O homem que via passar comboios (Georges Simenon)
São Sebastião: Eu hei-de amar uma pedra (António Lobo Antunes)
Senhor Roubado: Ruba’iyat (Omar Khayam)
Telheiras: A Cabana do Pai Tomás (Harriet Beecher-Stowe); Abrigos (António Pinto Ribeiro)
Terreiro do Paço: Manhã Submersa (Vergílio Ferreira)


linha Azul: Ave-do-Arremedo (Walter Tevis)
linha Amarela: A Orelha de Van Gogh (Moacyr Scliar)
linha Verde: História Trágico-Marítima (Bernardo Gomes de Brito)
linha Vermelha: Crime no Expresso do Oriente (Agatha Christie)

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