24 julho 2009
29 março 2009
# And now for something completely different...
02 março 2009
# Being José Sócrates
11 novembro 2008
# Sarah Palin: «Se a conversa da treta fosse dinheiro...»
Num artigo («Palin Problem») publicado a 26 de Setembro na National Review (revista, ligada ao Partido Republicano, que recentemente forçou o filho do seu fundador a demitir-se, depois de este ter publicado um artigo de apoio a Barack Obama), Kathleen Parker, referindo a notória falta de conhecimentos da Sarah Palin, diz que a governadora do Alasca está claramente a jogar fora do seu campeonato, não trazendo ao debate mais do que meia dúzia de lugares-comuns:
«Palin empaleia. Ela repete palavras, enchendo espaço com palha. Cortem a verborreia e não sobra muito conteúdo.»Uma frase é particularmente retumbante:
[«Palin filibusters. She repeats words, filling space with deadwood. Cut the verbiage and there’s not much content there.»]
«Se a conversa da treta fosse dinheiro, Palin conseguiria resolver sozinha o problema de falta de liquidez de Wall Street.»
[«If BS [bullshit] were currency, Palin could bail out Wall Street herself.»]
Parker termina pedindo à governadora que, para bem do seu país, saia da campanha enquanto é tempo (estávamos em Setembro), podendo salvar a face invocando motivos pessoais (o filho recém-nascido).
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29 outubro 2008
# Ignorância matemática
Quase todas as escolas do básico tiveram média positiva nas provas nacionais
Foram mais de mil as escolas que este ano tiveram uma média no exame nacional de Matemática do 9.º ano igual ou superior a 2,5 valores (numa escala de 1 a 5). Em 2007, tinham sido apenas duas centenas. Esta é uma das principais conclusões das notas de exame por escola ontem divulgadas pelo Ministério da Educação.
Quem faz (e quem noticia) médias de níveis 1 a 5 atribuídos no Ensino Básico mostra a sua ignorância matemática.
Os níveis (e não «valores», como erradamente os designam) 1 a 5 correspondem a uma escala qualitativa, não a uma escala quantitativa, pelo que não se pode com propriedade estabelecer uma média dessas classificações.
Note-se que a escala é de 1 a 5 — o que dá uma falsa ideia de quantitatividade —, mas poderia ser A, B, C... (como a escala de eficiência energética dos electrodomésticos), ou Vermelho, Laranja, Amarelo... (como os níveis de segurança ou a prioridade de atendimento hospitalar...). A opção por níveis numerados foi puramente arbitrária.
Há várias indicações de que a escala de 1 a 5 não é quantitativa, mas qualitativa:
- a ausência de um referencial absoluto (nível 0);
- a correspondência não-linear e arbitrária entre a classificação na escala 0-100% (esta sim, quantitativa) e os níveis de 1 a 5: tipicamente, 1 vai de 0 a 19%; 2, de 20 a 49%; 3, de 50 a 69% (ou a 74%); 4, de 70% (ou 75%) a 89%; e 5, de 90% a 100%;
- o facto de, por determinação ministerial, um nível 3 na avaliação de frequência (correspondente, digamos, a uma média de 50%) e um nível 2 no exame final (correspondente, p. ex., a uma classificação de 20% nesse exame) corresponder a um nível final de 3 (resultante do arredondamento da “média” de 2,7), independentemente das percentagens efectivamente obtidas (no exemplo dado, fazendo a média das percentagens obteríamos 41%, correspondente a um nível 2);
- uma turma com 10 alunos com testes de nível 4 e 10 alunos com testes de nível 2 não resulta necessariamente numa “média” de nível 3 de todos os testes da turma: por exemplo, se os níveis 4 corresponderem a uma média de 75% e os níveis 2 resultarem de uma média de 20%, a média da turma é 47,5%, o que corresponde a um nível 2.
Por isso, quando tratarem de classificações na escala (qualitativa) de níveis 1 a 5, não façam médias, que não são legítimas neste caso: façam medianas e outros percentis reveladores.
Ou, o que seria mais correcto (científica e pedagogicamente — ao arrepio do que defendem muitos “pedagogos”), abandonemos de todo a escala qualitativa de níveis 1 a 5 e fiquemo-nos pela muito mais natural, informativa e justa escala quantitativa de percentagens.
O único aspecto “negativo” dessa medida seria a impossibilidade de o Ministério da Educação decretar a “ginástica” criadora de (pseudo-)sucesso exemplificada no ponto 3 da lista anterior...
Ah, pois... Essa é uma enorme desvantagem política...
Nota: Este post tem um post-scriptum.
Etiquetas: Educação, Imprensa, Jornais, Política nacional
30 setembro 2008
# A métrica dos combustíveis fósseis (epílogo)

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29 setembro 2008
# A métrica dos combustíveis fósseis?

Só gostava de saber que métrica é que o infografista usou para determinar o tamanho relativo dos círculos de «Comparação dos maiores projectos por tipo de energia»...
A comparação deveria ser entre as áreas de cada círculo, mas não foi certamente o que se passou: 1200 MW é menos do dobro de 630 MW, mas a área do círculo daquele é 9,6 vezes maior do que a deste. Por outro lado, 630 MW é 7,5 vezes maior do que 84 MW, mas a relação entre as áreas dos respectivos círculos é inferior a 1,4...
A relação entre as potências instaladas também não se reflecte nos raios dos círculos (o que, ainda que errado, pelo menos teria uma lógica subjacente): para uma relação de 1,9 em potência temos 3,1 em raio do círculo, e para uma relação de 7,5 em potência temos uma relação inferior a 1,2 em raio...
Ora, como sabemos, muitos leitores não olharão para os números, mas para os tamanhos relativos dos círculos. (É exactamente esta constatação que dita a utilidade da infografia...) E o que é que os leitores infografo-dependentes concluirão (erradamente)? Que a central térmica é muitíssimo mais produtiva do que as restantes centrais, hidroeléctrica incluída — donde a energia térmica é e será sempre (ou pelo menos a médio prazo) insubstituível.
Tendo em conta que todas as energias apresentadas, com excepção da térmica, são renováveis, pergunto-me se a métrica utilizada na definição dos tamanhos relativos dos círculos terá sido a métrica do lobby dos combustíveis fósseis...
Nota: Este post teve epílogo...
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15 setembro 2008
# A segurança do transporte aéreo
Na Europa, pelo menos, é muito mais seguro de andar de avião do que de automóvel... quem disser o contrário não sabe o que está a dizer... todos os anos morrem o número de pessoas nas estradas europeias equivalente a vários acidentes trágicos de avião por semana!!!!
Já ouvi diversas vezes dizer coisas do género, e não digo nem que sim, nem que não — mas gostava de saber se estas afirmações se baseiam em contabilidade de merceeiro, ou se algum estatístico (verdadeiro) se deu ao trabalho de analisar os números.
A segurança de um transporte mede-se pela probabilidade de ocorrerem acidentes e pela sua gravidade. Para isso, não basta saber quantos acidentes ocorrem num e noutro meio: é preciso saber também quantos carros circulam e quantos aviões voam por ano; a quantos passageiros isso corresponde; quantos quilómetros percorrem e quantas horas passam a circular/voar; quantas pessoas morrem, quantas ficam feridas e com que gravidade; em caso de acidente, que percentagem dos passageiros morre ou sofre uma lesão grave.
Só depois de tudo isto ponderado é que se pode dizer qual é o meio mais seguro.
Alguém fez estas contas?
27 maio 2008
# Depois da Geração X... a Geração Y
Cartoon de Beaudet / Journal de Québec (Canadá)Etiquetas: Cartoons, Humor, Imprensa, Jornais, Lido/visto/ouvido por aí
26 março 2008
# Estar à beira do precipício e dar um passo em frente
[...] In the Internet age [...] no one has figured out how to rescue the newspaper in the United States or abroad. Newspapers have created Web sites that benefit from the growth of online advertising, but the sums are not nearly enough to replace the loss in revenue from circulation and print ads.
Most managers in the industry have reacted to the collapse of their business model with a spiral of budget cuts, bureau closings, buyouts, layoffs, and reductions in page size and column inches. Since 1990, a quarter of all American newspaper jobs have disappeared. The columnist Molly Ivins complained, shortly before her death, that the newspaper companies’ solution to their problem was to make “our product smaller and less helpful and less interesting.” [...]Etiquetas: 'New Yorker', Imprensa, Jornais
12 janeiro 2008
# Não me lembra nada nem ninguém (6)
The Argument Culture is giving way to something new, the Answer Culture
Critics used to bemoan what author Michael Crichton once called the “Crossfire Syndrome,” the tendency of journalists to stage mock debates about issues on TV and in print. Such debates, critics lamented, tended to polarize, oversimplify and flatten issues to the point that Americans in the middle of the spectrum felt left out. That era of argument —R.W. Apple Jr. the gifted New York Times Reporter who died in 2006, called it “pie throwing” — appears to be evolving. The program “Crossfire” has been canceled. A growing pattern has news outlets, programs and journalists offering up solutions, crusades, certainty and the impression of putting all the blur of information in clear order for people. The tone may be just as extreme as before, but now the other side is not given equal play. In a sense, the debate in many venues is settled — at least for the host. This is something that was once more confined to talk radio, but it is spreading as it draws an audience elsewhere and in more nuanced ways. The most popular show in cable has shifted from the questions of Larry King to the answers of Bill O’Reilly. On CNN his rival Anderson Cooper becomes personally involved in stories. Lou Dobbs, also on CNN, rails against job exportation. Dateline goes after child predators. Even less controversial figures have causes: ABC weatherman Sam Campion champions green consumerism. The Answer Culture in journalism, which is part of the new branding, represents an appeal more idiosyncratic and less ideological than pure partisan journalism.
30 outubro 2007
# Coisas que valeu a pena ler hoje
Os pobres são menos inteligentes do que os ricos?
«Em que escola estavas quando foi o 25 de Abril? Em que escola estão os teus filhos?» — À célebre pergunta «Onde é que estavas no 25 de Abril?» é imperioso que se juntem agora estas duas interrogações. Experimente-se por exemplo fazer estas perguntas aos ministros, deputados, autarcas, assessores, artistas, professores... e descobrir-se-á que a maior parte deles frequentou o ensino público mas optou pelo ensino privado na hora de inscrever os seus filhos e netos na escola. Não porque os seus filhos sejam mais ou menos inteligentes mas simplesmente porque têm medo que a falta de exigência os embruteça.
Duvido que algum destes hipotéticos inquiridos o assumisse claramente. Dariam como justificação os horários, os amigos, às vezes até os piolhos mas o que dificilmente diriam é que o fazem porque não acreditam na qualidade do ensino público. Muitos provavelmente serão oficialmente a favor do novo Estatuto do Aluno, tal como foram da afectação de tempos lectivos a ‘coisas’ como a Área de Projecto ou da desautorização dos professores e funcionários. Na prática isso não os afecta porque os seus filhos e os seus netos estão a salvo destes desmandos.
O falhanço do ensino público em Portugal tornou-se uma ratoeira contra os mais pobres: pobreza e o insucesso escolar tornaram-se sinónimos. E assim continuaremos para que ninguém preste contas por aquilo que começou por ser um erro e se está a transformar num crime.
Ao contrário do que se tornou quase banal dizer não foi a massificação do ensino público que comprometeu a sua qualidade. Os responsáveis por aquilo que os rankings cruamente espelham foram aqueles que fizeram da escola pública um espaço experiências sociológicas. Passamos a vida a discutir os programas mas um mau programa ainda é um programa. O pior foi baixar em cada ano lectivo o nível da exigência. Primeiro porque era mais moderno. Depois porque assim não se faziam distinções entre mais e menos inteligentes. Depois porque o objectivo da escola não era ensinar conteúdos mas sim ensinar a relacionar-se. Depois porque já não podia ser doutro modo.
Os filhos dos pobres não são nem mais nem menos inteligentes que os filhos dos ricos. Tiveram sim foi o azar dos seus pais não ganharem o suficiente para os poupar a esse papel de cobaias de teorias que tanto vêem na ignorância o estado supremo da perfeição igualitária como entendem que aprender tem de ser divertido e fácil. Nada disto afecta quem legisla porque os seus filhos não estão nas escolas públicas ou quando estão souberam contornar o crivo das moradas e horários de modo a frequentarem as turmas ditas dos filhos dos professores. Quem não pode fugir das más escolas é quem não tem dinheiro nem conhecimentos.
Alguns como Francisco Louçã querem agora diabolizar os rankings vislumbrando apoios da extrema-direita aos colégios que se encontram nos primeiros lugares. Engana-se redondamente. Quem fez a fortuna recente das escolas de maristas, jesuítas e da Opus Dei, dos colégios franceses, ingleses e modernos sem esquecer as escolas alemãs e americanas foram precisamente aqueles — às vezes de esquerda mas nem sempre — que resolveram que a escola pública não era o local onde todos tinham igual oportunidade de aprender, mas sim o espaço onde a irrelevância medíocre dos resultados provaria que todos podemos ser igualmente ignorantes e irresponsáveis.
Uma amiga minha que é professora do Ensino Secundário já por várias vezes verificou a existência de um cenário similar entre a classe média, mais concretamente entre os mesmíssimos professores seus colegas.
Na escola onde trabalham, defendem com paixão os princípios «modernos» (ou «pós-modernos»?) da «escola inclusiva» virada primordialmente para o desenvolvimento dos «afectos» (e não para a instrução), paraíso da «pedagogia não directiva» (entenda-se: em vez da sistematização do conhecimento, deixem-se os putos à deriva...) — mas na escola onde os filhos andam, defendem com unhas e dentes a aplicação do método tradicional, com muito trabalho, muita exigência e muito rigor: a única via para o sucesso que efectivamente reconhecem (porque a única que disso deu provas). E quando o azar dita que uma e outra escolas sejam a mesma (no interior escasseiam as boas escolas privadas — escasseiam as escolas, ponto final), então não hesitam em contratar um explicador, para que colmate com mais trabalho, mais exigência e mais rigor (mais sistematização do conhecimento) as lacunas que, na sala dos professores, negam existirem... A minha colega sabe-o bem, pois não raro é ela a explicadora que contratam para aplicar à prole os métodos que publicamente, entre os seus pares, proscrevem como antiquados.
27 outubro 2007
# Coisas que valeu a pena ler hoje
O eduquês envergonhado
[...] Esperariam pais e professores que o novo documento resolvesse as incoerências entre o «Programa» [de Matemática do Ensino Básico] de 1991 e o «Currículo [Nacional do Ensino Básico — Competências Essenciais]» de 2001 e que traçasse objectivos claros, ano a ano, com rigor, objectividade e alguma exigência
Engano. O nosso Ministério da Educação tem dito que quer cortar com o passado. Transmite uma imagem de rigor e até de intransigência. Seria bom que cortasse também com o passado nas orientações pedagógicas que a experiência mostrou serem erróneas. A reformulação do programa é pouco clara nos objectivos e conteúdos, mas insiste na má orientação pedagógica da Matemática e em muitos dos erros das últimas décadas.
[...] O reconhecimento público quase generalizado de que as coisas não vão bem no ensino, em particular no da Matemática, não tem abrandado o dogmatismo daqueles teóricos da pedagogia que de há anos a esta parte negam a evidência dos resultados e se esforçam por propagar a «escola inclusiva», as «competências gerais», a «pedagogia não directiva» e o «ensino centrado no aluno». Mas tem obrigado a um maior comedimento nas palavras. Os dislates discursivos que ficaram conhecidos como «eduquês» abrandaram. O sestro não.
Nuno Crato fornece um exemplo bem denunciador deste cuidado no disfarce da retórica eduquesa: face à polémica em volta do conceito das «competências» (que para os apóstolos do eduquês são incompatíveis com coisas tão maléficas como os «conteúdos» programáticos, a «abstracção» e o «conhecimento» em geral...), a palavra está totalmente ausente do novo documento que o Ministério da Educação tem em preparação; o anátema foi ao ponto de, ao referi-lo, se truncar o nome do «Currículo» de 2001! Os retocadores de fotografias de Estaline não fariam melhor...
Infelizmente, é mesmo só de mudança retórica que se trata: na sua essência, o eduquês está lá todo. Por exemplo, ao mesmo tempo que despreza ferramentas matemáticas simples e de eficácia secularmente comprovada (como sejam os algoritmos da divisão e da multiplicação), o novo documento recomenda que os alunos — desprovidos das ferramentas básicas! — realizem «investigação matemática», pois obviamente serão capazes de, dotados apenas das capacidades inatas que a Natureza lhes deu, «fazer Matemática de modo autónomo», nomeadamente «formular e investigar conjecturas matemáticas».
Para quem não sabe (e os pedagogos românticos parecem não saber), em Matemática, «formular e investigar uma conjectura» não é “mandar uns bitaites”: uma conjectura matemática é algo de muito concreto — uma afirmação que parece provável que seja verdadeira (não é conhecido nenhum contra-exemplo, nem parece provável que exista), mas cuja veracidade não foi formalmente demonstrada segundo as regras da lógica matemática; assim que se prova formalmente que uma conjectura é verdadeira, ela é elevada ao estatuto de teorema, podendo ser usada daí em diante com segurança na construção de outras demonstrações matemáticas formais.
Algumas conjecturas demoraram séculos a serem provadas verdadeiras ou falsas; muitas esperam ainda uma prova formal; de algumas provou-se entretanto ser impossível decidir se são verdadeiras ou falsas...
E ainda há quem diga que o eduquês não almeja a excelência do ensino!
P.S. O artigo de Nuno Crato está integralmente reproduzido no Portugal dos Pequeninos.
# Não me lembra nada nem ninguém (4)

- inferior predictive structure (estrutura preditiva inferior)
- frontal stupidity lobe (lobo frontal da estupidez)
- CNBC gibberish cortex (córtex da léria da CNBC)
- corpus credulum
- neo-bovine herd-mentalitum (mentalitum da manada neo-bovina)
- logic void (vazio lógico)
- falsehood persistence node (nodo da persistência na falsidade)
- arithmetical impossibility rationalization complex (complexo da racionalização das impossibilidades aritméticas)
- price decline overreaction region (região da reacção exagerada à baixa de preços)
- guru-bloviation acceptance ganglia (gânglios da aceitação do palavreado do guru)
- beer (cerveja)
- inappropriate enthusiasm nucleus (núcleo do entusiasmo inapropriado)
- historical lesson rejection lobe (lobo da rejeição das lições da história)
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26 setembro 2007
# Duplamente desconcertante
Paula Rego é dos poucos artistas cujas entrevistas verdadeiramente me interessam: o seu discuso não fica aquém da sua arte (mérito do discurso, não desmérito da arte). Nos outros, com sorte, interessa a arte — em Paula Rego até as palavras são desconcertantes!O exemplo mais recente (de ontem) é o da reportagem de Alexandra Lucas Coelho na inauguração da retrospectiva de Paula Coelho no “Reina Sofía” de Madrid. Mas ainda recordo com humor a cara do comissário da exposição do CCB em 1997 (Alexandre Melo) a cada resposta da pintora...
De “The Pillowman” (peça que teve recentemente uma fenomenal encenação de Tiago Guedes), disse a pintora que transformou a sua vida (um elogio não despiciendo, vindo de alguém com a idade, o percurso e o universo temático de Paula Rego, referindo-se a um dramaturgo — Martin McDonagh — nascido em 1970). Nas palavras de Paula Rego: «Vi aquela peça e pensei: “Como é que há pessoas que sabem isto?”»
(Interessante: quando vi a peça no TNSJ pensei: «Como é que ele se lembra destas coisas?!» — mas Paula Rego viu melhor: McDonagh não inventa aquilo, ele sabe que aquilo existe!)
A pintora dedicou-lhe um tríptico:
(Há mais informação sobre esta obra — e a peça que a motivou — na reportagem do Público e no site da Tate.)Agustina Bessa-Luís, Paula Rego e Martin McDonagh: ora aí está uma mesa-redonda para nos deixar de olhos arregalados!
15 setembro 2007
# Em caso de dúvida, contar pelos dedos
05 setembro 2007
# Na superficialidade é que está o ganho
[...] Em questão estava o título com que a National Geographic apresentava uma descoberta relatada na Nature e que dava a entender que esta descoberta despedaçava a teoria da evolução humana.
Outros media usaram igualmente títulos desconexos da realidade para apresentar a mesma descoberta, como é exemplificado pela canadiana CBS, que intitulou a história «World's oldest gorilla fossil challenges evolutionary beliefs». Ambos os títulos não têm rigorosamente algo a ver quer com as notícias que os acompanham quer com a descoberta reportada. Aparentemente os criacionistas apenas leêm títulos sem se darem à maçada de ler os artigos originais ou mesmo o corpo da notícia e quasi de imediato aproveitaram a «prenda» para repetirem qual mantra títulos de mau jornalismo.
Entretanto a National Geographic alterou o título de «New Fossil Ape May Shatter Human Evolution Theory» para o menos bombástico (e fantasioso) «New Fossil Ape May Shake Human Family Tree».
Esta história trouxe-me à lembrança o comentário de Jon Stewart à promessa de a CNN nos dar «mais histórias por hora»:
Para quem não quer — vá lá... — ou não pode ver o vídeo, ou para quem não percebe suficientemente inglês, o fundamental pode resumir-se a esta frase do apresentador do The Daily Show:
As pessoas não querem poucas histórias minuciosamente investigadas, elas querem muitas histórias abordadas por alto.
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12 fevereiro 2007
# Menina-Guerreira?
Como se não fosse já suficientemente bom o Sim ter vencido o referendo ao aborto, sabe-se agora que a revista Xis, de que Laurinda Alves é directora, vai acabar no próximo fim-de-semana. Salve Arbores!
Santana Lopes descobriu a merecedora herdeira do cargo de Menino-Guerreiro (ou, neste caso, Menina).
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10 novembro 2006
# Ler a ironia
[...] A isto deverá somar-se a questão das mulheres. Podemos dizer que aqui ressalta uma certa misoginia do autor. Em qualquer casa, por exemplo, deverá existir uma entrada só para os Homens e uma entrada posterior para as Mulheres. Mas também surge algo de subtil. As mulheres têm forma de agulha, são, por assim dizer, todas afiadas, pelo menos nas suas extremidades. Ora daqui decorre uma condição: podem tornar-se invisíveis. “Colocai uma agulha em cima de uma mesa, olhai-a de lado, de modo a que possais ver todo o seu comprimento; depois, olhai-a de frente e reparai como não vedes senão um único ponto: tornou-se praticamente invisível. Ora é isto mesmo que se passa com as nossas mulheres.” Este estatuto (algo em certa medida equivalente ao famoso aforismo lacaniano: “La femme ça n’existe pas”) torna-as manifestamente perigosas e por isso reprimidas pela ordem vigente masculina.
Não distinguirá EPC a misoginia da ironia? Não perceberá que a exposição de uma situação de facto (o estatuto de submissão da mulher na Época Vitoriana), mesmo que não expressamente contestada, não significa necessariamente uma apologia dessa situação? Não conceberá que por vezes a forma mais eficaz de crítica está no texto “meramente expositivo” e não no declaradamente argumentativo?
Talvez não. Talvez seja preciso fazer-lhe um desenho.
EPC não o diz, mas Flatland teve pelo menos uma edição nacional anterior: pela Gradiva, na colecção Ciência Aberta. Já agora, o livro inspirou um filme.
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08 novembro 2006
# Cosmicómicas
A leitura de Saraiva — como a sua vida, de facto — é fundamental para a compreensão do Portugal moderno. Pelo menos a julgar pelo que o próprio escreve. Aconteceu? Ele estava lá. Foi bom? Foi ele a sugeri-lo. Foi mau? Ele bem nos alertou, mas recusámo-nos a acreditar.
José António Saraiva é o Forrest Gump português: omnipresente e activo em todos os momentos-chave da História. Ou, dadas as evocações cósmicas do seu novo semanário, é uma versão infinitamente mais cómica de Qfwfq, a curiosa personagem que Italo Calvino, em Cosmicómicas, pôs a protagonizar todos os episódios relevantes da História do Universo, do Big Bang ao surgimento dos átomos, da formação das galáxias à evolução da vida na Terra.
Verdadeiramente, José António Saraiva é o Sol da nossa vida. E faz questão que nós o saibamos.
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