foto: Bruno Espadana

15 fevereiro 2009

#  Dona-de-casa verdadeiramente desesperada

cartazHá experiências impagáveis e irrepetíveis, ou, pelo menos, que apenas uma feliz e rara convergência de circunstâncias permite que ocorram. Por exemplo, ver Revolutionary Road na noite do Dia dos Namorados.

Revolutionary Road promete ser verdadeiro «Valentine material»: protagonizado (certamente não por acaso) por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, o par romântico de Titanic, o filme de de Sam Mendes arrebanhou certamente mais casais às salas de cinema do que os que conseguiu Noé conduzir à sua Arca... Abraçadinhos no escuro, cada par «segundo a sua espécie», novos e velhos aguardavam os suspiros que afinassem o tom para o perfeito fim de noite de S. Valentim.

Mas, como diriam os nossos amigos anglo-saxónicos, «You got another thing coming...»

Não demorou muito para que as atitudes mudassem. Entre a paixão, o romantismo inconsequente e a realidade da vida a dois; entre a violência verbal, psicológica e (quase) física; entre a loucura e o conformismo social; entre o desencanto, a infidelidade e o desinteresse de um casal mais naufragado do que o outro; entre o verniz da pacata moralidade suburbana (no sentido americano do termo) da década de 1950 e a corrosão que avança sob a superfície — entre tudo isto, havia muito por onde escolher para que as atitudes mudassem.
Na sala, o desconforto era quase geral: a respiração fazia-se a custo, ora sustendo-a, ora expirando sonoramente; os corpos amiúde se remexiam nas cadeiras, incapazes de encontrar uma posição cómoda; e, cereja em cima do bolo, a dez minutos do fim, o desabafo de uma miúda de pouco mais de vinte anos (se tanto) ao ouvido do namorado: «Este filme é um bocado esquisito...»

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29 março 2008

#  Eppur è tutto vero...

11 agosto 2006

#  Os Três Enterros de um Homem

Cartaz de 'Os Três Enterros de um Homem'Vejo no Cinecartaz do Público que os Cinemas King estão a repor Os Três Enterros de um Homem, realizado e protagonizado por Tommy Lee Jones.

(Nota à margem: ando há anos a adiar um “estudo” sobre o misto de fatelice e “medo de arriscar” dos distribuidores portugueses, bem patente em certas escolhas na hora de traduzir o título de um filme: a tradução correcta deste seria Os Três Enterros de Melquiades Estrada, mas cruz credo!, que o nome estranho ainda me afasta a clientela...)

Este filme — um dos melhores que vi nesta temporada (reconheço: não vi/não vejo muitos) — foi classificado com 3 estrelas por Luís Miguel Oliveira e Vasco Câmara; os mesmos das 4-estrelas-4 para Miami Vice. Mais mistérios...

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#  Crítica de cinema em estado crítico

Definitivamente não percebo nada de cinema. Sempre soube não ser um cinéfilo (muito menos um cinélogo, se é que isso existe), mas agora tenho a certeza de que a minha bússola anda desnorteada face ao pólo magnético dominante.

Cartaz de 'Miami Vice'A certeza quanto àquilo que era até agora “apenas” uma forte desconfiança chegou-me com a classificação de dois filmes actualmente em cartaz: Piratas das Caraíbas 2 e Miami Vice.
O primeiro, com o idiossincrático Johnny Depp no papel principal, tem uma classificação quase unânime no painel de críticos do Público: Jorge Mourinha, Luís M. Oliveira e Vasco Câmara atribuem-lhe uma estrela (“Dispensável”) e Mário J. Torres enterra-o mesmo com o famoso ponto negro (“A evitar”).
Quanto ao segundo, protagonizado por Colin Farrell (e Jamie Foxx — mas a agonia é devida a Farrell) recebe aplausos em uníssono: 4 x 4 estrelas (“Imprescindível”)! E até o Pedro Mexia se lhe refere como «(óptima) versão cinematográfica»!

Cartaz de 'Piratas das Caraíbas 2'Antes da estreia de Miami Vice eu interpretava a crítica demolidora a Piratas das Caraíbas 2 como um sinal de pseudo-intelectualismo serôdio: ai jesus, que horror, um filme sem densidade psicológica, de puro entretenimento! Não aceitava isso — há lugar para filmes de todos os géneros, e o filme de Johnny Depp atinge uma boa prestação no género em que se inscreve —, mas pensava compreender a lógica subjacente à classificação. Agora, vendo as reacções a Miami Vice, concluo que não compreendo nada.

Se em Piratas das Caraíbas 2 o ritmo é frenético, Miami Vice pauta-se por uma lentidão desesperante. Se Johnny Depp rouba todas as cenas em que participa, Colin Farrell nem o sono nos rouba (antes o promove): as suas personagens (todas as que me lembro dele como protagonista) não têm carisma, são amorfas, andam aos caídos pelo ecrã... Johnny Depp é histriónico (magistral, deliberada e hilariantemente histriónico) — Colin Farrell tem o carisma de um autista: em 80% das cenas os seus olhos fixam-se, mortiços, num ponto ao fundo do set por trás dos cameramen como quem, com pouca convicção, olha um estereograma...

E a todos estes defeitos, Miami Vice não contrapõe virtudes. A sua densidade psicológica está ao nível do teor alcoólico da água do Luso. A técnica narrativa é do mais banal, em linha com o argumento. Não se lhe vêem grandes méritos em termos de fotografia, de montagem, de banda sonora. E nem os efeitos especiais ou as “gajas” e os “gajos” são dignos de nota. Resumindo, Miami Vice não traz nada de novo e traz pouquíssimo de bom.
Ou seja, (i)modestamente opinarei que Miami Vice não tem nada que agrade ao vasto espectro de espectadores: da populaça mais básica às cliques (pseudo-)intelectuais, passando pelos fanáticos da técnica e pelos pragmáticos em busca de duas horas bem passadas, todos saem defraudados. Mas a crítica diz que não.

No Cinecartaz do Público classifica-se Miami Vice como um filme de acção, crime e drama. Acção, convenhamos, muito pouca e fraca (dir-se-ia que Miami Vice é um filme de acção não praticante). Crime, sem dúvida — mas menor do que o de cantar-lhe loas. E isso, sim, é que é um drama.

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08 junho 2006

#  Não se confirmou

Ontem fui ver O Código Da Vinci. Contrariamente aos receios da Igreja Católica e da Opus Dei, não fiquei com pior opinião da Igreja Católica e da Opus Dei.

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18 maio 2006

#  Santa inocência (ou “pensando mal”)

O tema de destaque do Público de hoje é, como seria de esperar, O Código Da Vinci. Cito a parte final da reportagem de Vasco Câmara:
[...] E que pensa sir Ian [McKellen] da tese do casamento entre Jesus e Maria Madalena? “Quando li o livro acreditei. Dan Brown foi esperto, conseguiu manipular a minha mente. Quando pus o livro de lado, pensei: ‘Que monte de tretas.’” Com sabedoria, rematou, e assim dizendo tudo o que havia para dizer: “Mas pensando bem, as teorias do casamento de Jesus e Maria Madalena ao menos provam que, afinal, ao contrário de outras teorias, Jesus não era gay.”

Non sequitur, sir Ian, non sequitur!...

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01 maio 2006

#  Inverosimilhança

Acabo de ver o filme O Segredo (The Nun, no original). O enredo resume-se facilmente: o fantasma de uma freira vem pela canalização para matar aquelas que 18 anos antes a mataram. Tudo, portanto, coisas banais, do dia-a-dia de todos nós...

... mas três espanhóis a falarem fluentemente inglês arruína-lhe a verosimilhança.

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