foto: Bruno Espadana

28 março 2006

#  A Crise do Islão, de Bernard Lewis

Capa de 'A Crise do Islão'Li a semana passada o mais recente livro de Bernard Lewis editado em Portugal, A Crise do Islão — Guerra Santa e Terror Ímpio (2003; Relógio d’Água, 2006). Dele, antes de mais, posso dizer que é inteiramente merecedor das palavras de Daniel Johnson (Daily Telegraph) incluídas na contracapa:

As virtudes características do autor estão todas em grande evidência: concisão, legibilidade, perspicácia irónica e uma lógica impressionante. Isto é Bernard Lewis vintage: ele melhora com a idade.

Não estando com tempo nem disposição para mais, limito-me a citar algumas passagens (os destaques a são meus).


Se dúvidas houvesse, eis por que o Islão é incompatível comigo (e vice-versa):

Se é possível falar de um clero no mundo islâmico num sentido sociológico limitado, de laicidade, porém, não é possível falar em sentido nenhum. A simples ideia de algo separado ou possível de separar da autoridade religiosa, que em linguagem cristã se exprime por termos como «leigo [melhor: laico], temporal ou secular», é totalmente estranha ao pensamento e à prática islâmicos. [...] (p. 33)

Sobre a ausência de discussão crítica no seio (autocrítica) e à volta do Islão:

[...] actualmente, não há nenhum país cristão em que os líderes religiosos possam contar com o grau de fé e de participação que continua a ser normal em terras muçulmanas. Em poucos países cristãos, ou mesmo em nenhum, os valores sagrados cristãos gozam de imunidade ao comentário ou discussão crítica que é aceite como normal até nas sociedades muçulmanas ostensivamente seculares e democráticas. Com efeito, essa imunidade privilegiada foi alargada aos países ocidentais onde existem agora comunidades muçulmanas, e onde a fé e as práticas religiosas muçulmanas gozam de um nível de imunidade à crítica que as maiorias cristãs perderam e as minorias judaicas nunca tiveram. [...] (p. 38)

Sobre o relacionamento do Islão com outras fés e culturas, e com o Ocidente em particular:

[O Islão] Ensinou homens de raças diferentes a viver em fraternidade, e pessoas de credos diferentes a viver lado a lado num clima razoável de tolerância. [...] Mas o Islão, como outras religiões, também passou por períodos em que inspirou em alguns dos seus seguidores sentimentos de ódio e de violência. Por infelicidade nossa temos de nos confrontar com o mundo muçulmanos quando ele atravessa um desses períodos, e quando a maior parte desse ódio — embora de modo nenhum todo ele — é dirigido contra nós. (p. 43)

[...] é o Islão, fundamentalista ou de qualquer outra espécie, uma ameaça para o Ocidente? [...] De acordo com uma escola de pensamento, após o colapso da União Soviética e do movimento comunista, o Islão e o fundamentalismo islâmico substituíram-nos como a principal ameaça para o Ocidente e o estilo de vida ocidental. Segundo outra escola de pensamento, os muçulmanos, incluindo os fundamentalistas radicais, são basicamente pessoas decentes, amantes da paz e piedosas, algumas das quais perderam a paciência com todas as coisas horríveis que nós, os do Ocidente, lhes fizemos. Nós decidimos vê-los como inimigos porque temos uma necessidade psicológica de um inimigo que substitua a defunta União Soviética.
Ambos os pontos de vista contêm elementos verdadeiros, e ambos estão perigosamente errados. O Islão em si mesmo não é um inimigo do Ocidente [...]. Porém, um número significativo de muçulmanos — sobretudo mas não só aqueles a quem chamamos fundamentalistas — são hostis e perigosos, não porque nós precisemos dum inimigo mas sim porque eles precisam. (pp. 44–45)

[...] Alguns deles ainda vêem o Ocidente em geral, e em particular o seu actual líder, os Estados Unidos, como o velho e irreconciliável inimigo do Islão [...]. Para estes, o único caminho é a guerra até à morte [...]. Outros há que, embora sejam muçulmanos convictos e cientes dos defeitos da sociedade ocidental moderna, [...] procuram juntar-se a nós na tentativa de alcançar um mundo mais livre e melhor. Há ainda outros que, embora considerando o Ocidente o seu inimigo derradeiro e a fonte de todos os males, todavia estão conscientes do seu poder e pretendem um alojamento temporário, para melhor se prepararem para a luta final. Temos de ser prudentes para não confundir os segundos com os terceiros. (p. 45)
(Tratar os segundos como se fossem os terceiros é injusto — e contraproducente. Mas convencermo-nos de que os terceiros são os segundos é imprudente — e o 11 de Setembro mostrou quão perigoso.)

Sobre a ambiguidade das democracias ocidentais (a situação na Argélia e outras experiências democráticas em países islâmicos):

[...] Em Janeiro de 1992, depois de um intervalo de tensão crescente, os militares cancelaram a segunda volta das eleições. Nos meses que se seguiram dissolveram a FIS [Frente Islâmica de Salvação] e instalaram um regime «secular», que na realidade era uma ditadura implacável que mereceu sinais de aprovação em Paris, Washington e outras capitais ocidentais. [...] Problemas semelhantes surgem no Egipto, no Paquistão e noutros países muçulmanos onde parecia provável que eleições genuinamente livres e justas viriam a resultar numa vitória islâmica.
Nisto, os democratas estão evidentemente em desvantagem. A sua ideologia exige que eles, mesmo quando estão no poder, concedam liberdades e direitos aos islamitas da oposição. Os islamitas, quando estão no poder, não estão sujeitos a essa obrigação. Pelo contrário, os seus princípios exigem que eles suprimam aquilo que consideram liberdades ímpias e subversivas.
Para os islamitas, a democracia, por expressar a vontade do povo, é a estrada para o poder, mas é uma estrada de sentido único, pela qual não há regresso, não há rejeição da soberania de Deus, conforme é exercida através dos Seus representantes escolhidos. A sua política eleitoral foi classificada sumariamente como: «Um homem (só os homens), um voto, uma vez».
[...] Mas isso não é razão para dar mimo a ditadores. (pp. 102–103)

Por estes e por outros momentos de rara clarividência (e preciosa informação), este pequeno livro (150 pp.) é de indispensável leitura.

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